As palavras carregam pesos e memórias tal como o passar dos anos carrega histórias e uns quantos esquecimentos. Quanto maior o aglomerado de dias, semanas, meses maior parece a minha propensão à falta de memória, até porque me parece mais sábia a hipótese de me esquecer de determinadas ocasiões (que poderão incluir quedas embaraçosas, que envolvem solas das minhas botas preferidas em dias de chuva, em cafés cheios de pessoas durante a hora de ponta do pequeno-almoço) ou porque sei que a dor é demasiado aguda e me sobressalta o estômago, porque há olhares de algumas pessoas e dos meus cães que julgo, muitas vezes, não me irão olhar nunca mais.
Sim, esta coisa do passar do tempo, englobando dez anos (que me fez parar e pensar quantas fases da lua teriam acontecido nesta totalidade temporal), acumula palavras e muitos mais silêncios, que se fazem a nós próprios porque não nos percebemos nas muitas noites de insónia. Quantas horas não dormi e quantas noites mal ou bem não-adormecidas terei tido, numa vida de cento e vinte meses?
As memórias carregam muitos silêncios e palavras que são ditas que se queriam dizer ou escrever, faladas em noites de abençoada e ligeira embriaguez (regada nos incontáveis mas felizes jantares), nas que já não conseguíamos guardar (porque não queríamos mais noites de insónia a não ser as que valessem a pena) ou nas que nos saiam esbaforidas pela boca fora, transformadas em mágoas e explosões como a lava de um vulcão, porque se há coisa que jamais nos podemos esquecer, é que todos somos humanos nesta passagem das incontáveis horas.
Dei-me tantas vezes em contas quando me apercebi que, afinal, dez anos não foram assim tantos como isso (apesar de terem sido muitos) e que passaram a correr. E que se estes passaram a correr e com eles o crescimento dos filhos e o envelhecimento dos meus pais, que me são tão queridos que parece quase doer, como serão os próximos e a que velocidade terei que ir?
Cento e vinte meses de me sentir confortável. No entanto, quantos deles me trouxeram a incrível angústia e o temível desalento do desconforto?
Na verdade o que todos queremos na mais pura das ânsias é esse bem-estar, esse pisar firme e seguro e, acima de tudo, um estado eterno de perfeito aconchego.
Eis que a passagem do tempo traz isto também, esta quase perfeita noção de que não existe outra maneira senão abraçar o que acontece, em grandiosa e nobre realidade. Incluindo os brutais desconfortos que muitas vezes chegam para nos tirar chão em absoluta surpresa, destapar as nossas histórias inacabadas e guardadas em poeirentas gavetas ou confrontar-nos, bravamente, com a ideia da nossa e de outras mortes.
Numa simples e apoteótica escorregadela das próprias botas. Ou das alheias. Os nossos desconfortos são espelhos dos maiores que acontecem no mundo.
Que fiz com todas estas aflições? Como agi perante os pequenos ou os grandiosos desalentos?
Nesta passagem do tempo que hoje recordo, acredito que caminhei e caminho com todos eles. Tenho medo mas também me compadeço. Percebo, acima de tudo, que quando surgem estão lá também para me relembrarem e reflectem quem sou, onde estou e, sobretudo, para onde não quero ou não devo ir.
Podem puxar-me as orelhas, às vezes até com agressividade, mas é a mim que me cabe estender a mão e perceber para onde me querem levar. Em grande parte das vezes nunca soube qual era o destino. Nem se sei lidar com os grandes incómodos do próprio mundo que me afectam também.
Conduziram-me até aqui. Enquanto escrevo estas palavras, analisando as noites que não dormi. As palavras e os muitos silêncios. De tudo, espero ter tido medidas e pesos certos.
Talvez daqui a dez anos possa continuar a reflectir, sempre em assombro com esta espantosa arte que é a de viver, partilhando convosco histórias com outros detalhes. E nessa altura seja capaz de vos dizer, sem total hesitação, quantas fases foram as da lua e como é que eu as vivi.
A autora escreve segundo a antiga ortografia