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2022 ou reality shows (off)

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Parece que este é mais um texto que regista perspectivas e opinião pessoal sobre o visionamento dum filme. Porém, não se reporta a um filme mas, aponta para uma “estranha ordem das coisas” que, contrariamente ao senso-comum, apelam para um absentismo intelectual por ser mera abstracção da mente lógica. Telerrealidade, reality shows ou outros programas de TV, da manhã ou da tarde, com a intenção de entretenimento e sem o fim último de aumento de audiências.

 

Em cada patamar, diante do poço do elevador, o rosto enorme fitava-o da parede. Desses retratos de tal maneira conseguidos que os olhos nos seguem os movimentos. O GRANDE IRMÃO ESTÁ A VER-TE, rezava por baixo a legenda.”

George Orwell, 1984*

 

Sabe como é feito o estudo de audiências? Clique em George Orwell e verifique.

Pessoalmente, entendo sem o compreender. Até que ponto, o cérebro nos condiciona das actividades neuronais em prol dum condicionamento da crítica e da acção para tudo o que nos rodeia?

É fácil escolher. Todos temos a necessidade de extravasar. De sair deste estado constante de alerta e angústia, que nos ligam às rotinas e ao que se passa no mundo, perto ou longe.

Muitas vezes, demasiadas talvez, cai-se na incerteza que são as vidas dos outros e, do nosso pedestal, se avaliar a vida alheia. De opinar sobre as realidades ou ilusões que as acompanham para que a nossa, vida própria, seja decididamente melhor que a dos outros.

E, curiosamente, se aniquile toda a razão de quem se é, como resultado do comportamento do outro condicionados que estão numa tela colorida e entusiástica, acumulando as emoções exacerbadas e, muitas vezes, teatralizadas para fazer jus a estatísticas e parâmetros de medida de audição televisiva.

Quem viveu ou vive nas aldeias mais recônditas de Portugal, recorda e sabe do que falo. Na memória entram as imagens das vizinhas e senhoras que passavam os dias à janela, a ver quem passa, quem sai e o que leva. Quando entra ou o que traz. Para depois, respeitosamente, “coscuvilhar” sobre a vida alheia e debater (com sentido e crítica), o quotidiano da vida dos outros. Situação esta, há alguns anos vivida (?) Talvez nas cidades grandes ninguém olhe pelas janelas que se fazem obscuras no Betão concreto que ruma aos céus. Ou, porque, ninguém lhes liga, como ninguém que se conhece ou quer saber que ali está, já que o anonimato da densidade populacional assim o exige.

Então, fica-se dentro de quatro paredes e as janelas abertas para um televisor que nos oferece, de bandeja, assunto para as 24h seguintes.

“Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o futuro, controla o passado” *

É esta frase inicial do filme, a partir da qual se entende a utopia ditatorial que fará o cenário e facilmente controla as pessoas que, o tempo todo são “vigiadas” por uma autoridade denominada “Big Brother” e, curiosamente, onde há uma teletela, que dita as regras dentro dessa sociedade.

Perspectivas diferentes que se querem respeitadas. Continuo sem o entender. Talvez um constrangimento pessoal ou intolerância pelo percurso de exigência em Ser diferente e fugir a um padrão de igualdade social. Um comportamento radical que põe em causa e, a ser vivido em ambiente de total controle, rapidamente erradicado pela mesma razão. E quem controla o presente? Quem o vive e como vive, para além deste estado de viver?

Por isso, entendo que talvez seja arbitrário e injusto para com quem se abeira “nas janelas das suas vidas” para atento estar à vida alheia, mas que, é questionador enquanto dúvida e levanta o porquê de se querer estar limitado e controlado por entre paredes(?). Se a isso for obrigado, certamente, a mente o recusará.

Algo que pode ser compreendido nestas linhas, de A Estranha Ordem das Coisas, de António Damásio: “tem sido tão difícil preencher o fosso que separa a regulação de vida imposta naturalmente e as respostas que vamos inventando que a condição humana se assemelha, frequentemente, a uma tragédia e, talvez menos frequentemente, a uma comédia. A capacidade de inventar soluções é um privilégio propenso a fracassos, e muito oneroso. Podemos chamar a isto “o fardo da liberdade”, ou, mais concretamente, “o fardo da consciência”.”

Será que a liberdade social que privilegia muitos é demasiada para que a mente o seja também?

Ainda hoje alguém referia que tinha muito tempo. Que via muitos programas da manhã e, que conhecia um dito apresentador de há muito tempo!

– “Quero dizer, conheço dos programas de televisão e gosto muito dele!”

O ideal, sem que o seja, é o senso-comum, o espírito crítico de cada um, equilibrado para não ser exagerado num lado ou, individualizado no outro. Por vezes, é apenas companhia duma solidão que coexiste em muitas casas.

Todos os esforços de educação que as sociedades democráticas consentiram parecem ter esquecido um objectivo essencial do conhecimento: o espírito crítico, se for exercido sem método, conduz facilmente à credulidade. A dúvida tem virtudes heurísticas, é certo, mas pode também conduzir, não à autonomia mental, mas ao niilismo cognitivo.

Gérald Bronner, La démocratie des crédules

Em curiosidade fica a questão de que, se por um lado, é próprio da condição humana – instinto, tirar prazer na observação do comportamento humano, quando um confinamento obrigatório lhe exige essa exposição. Como é que, devido à pandemia que “enclausurou” meio mundo e durante tempo demais, se continua a sentir prazer em algo que sabemos, irá provocar no comportamento das pessoas, atitudes exageradas pelo condicionamento físico e não, somente pelas suas características individuais?

Há coisas que não se mudam porque não se podem mudar. Ou, será que podem?

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Carmen Ezequiel
Carmen de Jesus Martins Ezequiel nasce a 8 de Abril, em Queijas, Concelho de Oeiras. Em Vila Boim, bela terra do Alto Alentejo, Concelho de Elvas, cresce e, nas suas planícies se norteia para fazer da poesia o seu modo de viver a vida. Vive actualmente na Aldeia de Paio Pires, Concelho do Seixal, local ao qual se afeiçoou pelas paisagens que circundam a sua baía. Escritora, poetisa, cronista, humanista e activista cultural, desde 2000 que participa em colectâneas e antologias de prosa e poesia. Com alguns livros publicados, nas formas literárias de prosa, poesia, conto infantil e ensaio. A autora não utiliza o Novo Acordo Ortográfico.

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