É fácil olhar para um corpo que nos parece (im)perfeito e despertar nele o desejo que parecia andar adormecido.
É como gritar para que as hormonas comecem a bailar implorando por um pouco de emoção naquele corpo que vive numa eterna escuridão.
Os olhos percorrem cada centímetro de pele que descobrem a descoberto e deslumbram quem se sente observada pelo desejo de tocar no corpo que está a desejar. A boca pede um beijo e as mãos procuram as curvas onde esse desejo quer viajar sem que tenha medo de se perde nessa viagem de prazer.
O tempo e a vida ficam para depois, pois naquele momento só temos olhos para a paixão que nasceu como se fosse uma oferenda do destino.
É fácil dançar esse bailado, que nem sequer precisa de ensaios. É demasiado fácil fazer com dois corpos se confundam na imensidão do que estão a sentir. É fácil entregar o nosso corpo a quem nos acaba de seduzir com um só olhar.
Mas, todo esse jogo é perigoso, isso não é amor.
A verdade é que toda essa tempestade de emoções vai passar, quando aqueles corpos despertarem para a realidade que os calou durantes breves minutos em que foi a paixão a gritar por eles. Nesse instante vão perceber que é fora desse sonho em que voaram, como se fossem duas aves, que terão de decidir que rumo querem escolher.
É aí que o que foi fácil se torna demasiado difícil. É aí que surgem as dúvidas e se encontram os defeitos. É nessa hora que o que nos pareceu perfeito pode não ser suficiente para que o amor possa nascer.
Aquele corpo, quase (im)perfeito, para o qual olhamos tem marcas que não nos conquistam quando deixamos de o observar com os olhos da tentação que ardia no nosso corpo e então entenderemos que é preciso sentir o outro de olhos fechados para podermos amar.
É preciso desejar sem olhar, entender sem questionar e amar para além da carne. É preciso amar a alma de quem o olhar escolheu sem procurar qualquer outra explicação. É nessa hora que o desejo arrefece e as falhas que o outro tem, e não escondeu, não se podem apagar e aí encontramos a desculpa perfeita para terminar o amor que nunca chegou a nascer.
Foi fácil fazer amor com aquele corpo que nos seduziu, mas não seremos capazes de amar o que está para lá do corpo. Não seremos capazes de entender a alma que governa aquele corpo que agora nada nos diz.
O amor é viver no avesso do que vemos e sentir tudo o que a paixão encobre.
Amar é sentir para lá do olhar de quem nos está a seduzir.
Amar é fácil, porque o difícil é manter os olhos fechados perante a miragem de um corpo (im)perfeito que nos acorda o desejo que andava adormecido.