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Duarte

Tomava o seu banho de sol revigorante e saudável, como habitualmente. Nada como um bom sol para retemperar as forças e preparar para um dia inteiro de preguiça. Preguiça? Sim, era aquilo que ele sabia fazer e muito bem.

A culpa não era totalmente dele, mas sentia-se bem com o facto de não ter de se preocupar com o seu sustento. Dantes, quando vivia na rua, cheio de determinação e necessidades, é que a vida era dura. Tinha de lutar com os outros pela posse do território, tinha de procurar alimentos e tinha de marcar a sua posição em relação às fêmeas. Eram tempos idos que nem deixavam saudades nem nenhuma nostalgia.

Tinha uma orelha toda esfarrapada duma luta que tinha saído como vencedor. Aquilo é que era um troféu! Mas na altura custou-lhe imenso ter de mostrar quem era o mais forte. Isto de ser o chefe tem muito que se lhe diga, não se conquista sem mais nem menos, é preciso muito trabalho e muita garra. E foram as garras que o fizeram vencer, o levaram à vitória final. O outro bem tentou deixar-lhe mais marcas, mas ele esquivou-se só com uma orelha rasgada. Ai! Isso fê-lo ficar quase cego de raiva e abriu as suas patas que acertaram em cheio no focinho do outro. O sangue saltava por todo o lado e o pobre do adversário deu às de Vila Diogo.

Agora era um acomodado da vida. Estas eram as suas lembranças de glória. Que saudades das gatas que o rodeavam: ele era o herói delas. Todas o queriam para seu par. Ele bem tentava chegar a todas, mas tornava-se uma tarefa inglória. Durante muito tempo, todos os pequenos gatitos eram seus descendentes e disso ele tinha a certeza. Contudo, o que é bom acaba depressa e não dura sempre. Os anos começaram a pesar, a agilidade ficou menor e os seus reflexos começaram a traí-lo. Ele bem tentava, mas o corpo já não era o mesmo. Parecia que não o respeitava e não lhe obedecia. Tinha de encontrar um modo airoso de se afastar daquela vida majestosa, mas que não fosse humilhante. Não queria ser derrotado pelos outros, só tinha de encontrar um meio de dar a volta à situação.

Um dia, estando em cima do seu muro preferido, não reparou que este tinha uma falha (a vista também já não era a mesma) e, sem dar por isso, caiu em cima dum monte de entulho. Correram todos a socorrê-lo. Não é nada verdade que um gato caia sempre de pé. Ele caiu de lado e ficou magoado. O barulho foi tão intenso que as várias janelas do pátio se abriram. Estava derrotado. Que vergonha! Nem se conseguia mexer e só de pensar nisso começava a doer-lhe o corpo todo.

Eis quando, figura divinal surgida do nada, lhe aparece uma sombra feminina que o recolhe e o leva junto ao seu peito. Sentiu-se dividido: se por um lado estava cheio de dores, por outro estava muito satisfeito de alguém o ter acolhido. Como lhe sabia bem aquele cheiro a mimo e a calor humano.

– Anda meu menino que vou tratar de ti – e levou-o ao colo.

Afinal não tinha nada partido, estava só dorido e com muito amor e tratamento rapidamente voltou ao seu estado normal. Ele era sopas de leite morninho, festinhas nas costas, muitos biscoitos e muito colinho. Em pouco tempo já nem se lembrava da vergonha que tinha sido aquela queda.

Agora tinha uma casa só para ele, uma dona que se preocupava consigo e um novo território sem inimigos. Não precisava de mostrar nada a ninguém. Estava bem: tinha atingido a felicidade. Por isso tomava banhos de sol para revigorar o seu ego. Era assim.

Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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