Situação Crítica: BD portuguesa

Desde que o Filipe Melo começou a produzir banda desenhada regularmente, com o seu companheiro Juan Cavia, cimentou-se como um fenómeno de vendas e crítica. Contudo, infelizmente, o seu sucesso não fez com que os leitores depois de lerem a Balada para Sophie (por exemplo), fossem à procura de outros autores portugueses – muitos autores excelentes continuam por descobrir e é rápido tentar mudar esse paradigma, ou um conjunto de artistas vai cair no esquecimento –  o desistir da BD é algo normal e uma parte importante da nossa cultura recente será esquecida.

Portanto, vou tentar responder à questão: Li o Balada para Sophie, o que posso ler agora?”.

Primeiro, vou tentar entender quais os vectores de interesse que esta obra tem (na minha opinião naturalmente) e depois vou procurar obras e autores que posso recomendar e que os leitores poderão gostar.

A Balada para Sophie trata de música, tem elementos históricos apresentados de forma ligeira, a história é contada com graciosidade e tem uma arte muito apelativa. Além de tudo isto, apresenta-se de uma forma bastante cinematográfica e é naturalmente um drama, muito humano com pitadas de humor.

As partes de um todo

Música

Com a música como tema principal é impossível fugir à Pior Banda do Mundo de José Carlos Fernandes. Se não é um leitor habitual de BD, não há problema, porque o autor tem uma escrita bastante erudita, inteligente e cheia de humor. As situações são bastante bizarras e a música é o denominador comum, que une tantas personagens estranhas e fascinantes.

Neste momento é possível encontrar a obra em dois volumes. No entanto, se tiver a hipótese de ler algo mais curto do autor, irá ver logo se gosta do seu estilo. Trata-se de um autor que foi amplamente editado fora de Portugal e com bastantes fãs, mas…

História

O BaileÉ normal os autores de BD se apoiarem em factos históricos e depois, a partir deles irem para outras latitudes narrativas.

Neste caso, recordo-me logo do excelente O Baile de Nuno Duarte e Joana Afonso. Passado no Estado Novo, o argumentista aproveita-se da vinda do Papa Paulo VI a Portugal, para criar uma situação que requer o trabalho de um investigador da PIDE.

 

Graciosidade/drama humano

ToutinegraContar uma história de forma graciosa é algo bem mais complicado do que possa parecer. É preciso que os autores sejam muito honestos com o que propõem, ou a graciosidade facilmente se transforma em artificialidade.

Recordo-me do Toutinegra de André Oliveira e Bernardo Majer. Uma história que percorre a vida de duas personagens, desde a sua infância até à idade adulta, fazendo um bonito contraste entre as várias fases da vida.

 

A arte apelativa

MilagreiroEste é possivelmente o aspecto mais subjectivo. O que entendemos de uma arte apelativa, pode ir desde a ilustração em si, até à forma como a arte conta a história a que se propõe. É um erro analisar a arte apenas por ser bonita ou feia – essa é a magia da banda-desenhada – uma arte feia pode ser a ideal para um determinado tipo de história.

Como arte apelativa, mas sem descuidar do guião, vou deixar como sugestão O Milagreiro de André Oliveira e de várias artistas que trabalham no mercado internacional (André Caetano, Filipe Andrade*, Nuno Plati, Ricardo Cabral, Ricardo Tércio** e Ricardo Drumond).

 

*Não esquecer que o Filipe Andrade este ano está nomeado para dois Eisners pelos livro The Many Deaths of Laila Starr.

**Ricardo Tércio faleceu em 2019 e esta é mais uma razão para recordar um dos maiores talentos da BD Portuguesa.

Humor

O Corvo - o regressoNão querendo resumir o autor ao humor, penso que uma boa escolha pode recair sobre o Luís Louro. No entanto, na minha opinião, as melhores obras dele são os primeiros dois Corvos, em que o humor tinha um registo mais trágico e menos brejeiro do que os seus livros mais recentes.

Num estilo completamente diferente, há naturalmente várias tiras de autores portugueses como Geral e Derradé e o Álvaro.

 

Autores a seguir

Tal como no cinema ou na literatura, temos na BD Portuguesa, um conjunto de autores dos quais é de esperar sempre obras de qualidade. Da mesma forma, que o nome Filipe Melo já vende um livro, queria deixar-vos aqui dois autores em destaque (por causa do número de obras disponíveis actualmente) e ainda mais uma lista de autores que produzem trabalhos de grande qualidade.

Osvaldo Medina

  • é provavelmente o melhor narrador visual da banda-desenhada portuguesa.
    Qualquer trabalho do Osvaldo vale pela sua arte e porque ele trabalha sempre para contar histórias e eleva-as com o seu talento.
    – Kong The King, Hawk, Roleta Nipónica, Fórmula da Felicidade, entre muitas outras obras.

André Oliveira

  • um excelente argumentista, muito focado em histórias sobre as pequenas coisas da vida. É de esperar dele, histórias comoventes e com uma enorme sensibilidade. Curiosamente, se encontrarem tiras humorísticas escritas pelo André, atirem-se de cabeça. Ele e o seu amigo Pedro Carvalho escreveram das coisas mais hilariantes da bd nacional recente.
    – Vil, Milagreiro, Toutinegra,Tiras do Baralho, Quarentugas, Volta, Living Will, entre muitas outras obras.

Sendo o Osvaldo e o André os autores com mais obras actualmente disponíveis, deixo uma lista de outros autores de grande qualidade:

      • Nuno Duarte
      • Mário Freitas
      • Joana Afonso
      • Mosi
      • Bernardo Majer
      • Pedro Cruz
      • Derradé
      • Luís Louro

Algumas recomendações

Agora deixo-vos uma lista de livros de autores portugueses que estão na lista dos melhores que já li e fáceis de adquirir (e que ainda não foram mencionadas).

Kong The King
Kong The King

Um livro sem uma única palavra, que é um exercício espectacular, na arte da banda-desenhada.

Se gostam de filmes da Pixar, ou animações criativas, com personagens cativantes e deliciosas, o Kong é uma aposta segura.

Uma obra-prima da BD portuguesa, que terá ainda este ano a sua continuação.

 

Tu és a Mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhosTu és a mulher da minha vida...

Um clássico da bd portuguesa que no final do ano passado teve uma nova edição, agora em capa dura e com uma nova capa. Além disso, tem uma entrevista conduzida aos autores, pelo André Oliveira, entrevista essa que nos mostra a importância que este livro, com mais de 20 anos teve na bd nacional.

Uma obra-prima que já é um clássico – e ter uma reedição por cá é algo, só ao alcance de poucas obras.

Fogo Sagrado

O Fogo SagradoSe me perguntarem qual o livro mais importante desta lista, sobretudo para quem não conhece a realidade da banda-desenhada portuguesa, diria que é este livro.

Derradé mostra de forma bem humorada, como é fazer bd em Portugal – as lutas, as frustrações, ou dissabores e as poucas vitórias.

Não sei se é uma obra-prima, ou a prima do mestre de obras, sei que é um registo de um momento da bd portuguesa, que será um clássico daqui a uns anos.

Sei que naturalmente me esqueci de alguns bons autores da Banda Desenhada portuguesa.

No entanto, neste artigo a proposta é a boa bd que pode chegar a um vasto público, com a maior qualidade possível. Claro que há um nicho do nicho, do qual há autores que gosto, mas que não fazem sentido no contexto deste artigo.

Agora se já leram o Balada e gostaram, façam um favor a vocês mesmos, leiam outros autores e vão ter com eles num festival ou evento para trocarem umas palavras. Não é de dinheiro que esta gente vive. É de contar histórias e de saber que alguém as “ouviu”.

Nota: Este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico
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