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Sociedade

Tirania da felicidade

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Constantemente visualizados vídeos de pessoas com receitas que trazem aquela solução milagrosa que tanto precisávamos para sermos felizes ou alcançarmos o sucesso. Não apenas vídeos, mas também livros e audiolivros promovem esta ideia de que a vida perfeita e o sucesso são possíveis. Diariamente vemos reels de pessoas que têm a vida perfeita. Viajam, comem requintados e saborosos pratos, passam fantásticas férias nas ilhas gregas ou mostram-nos como é viajar em primeira classe.

Frases como: “A coisa mais importante no mundo, é o que acreditas sobre ti mesmo”; “Nesta vida não tens nada a provar a ninguém, a não ser a ti mesmo” ou “Um verdadeiro perdedor é aquele que nem sequer tenta por ter medo de perder”. Em si mesmas, estas frases têm algo de verdadeiro. Tal como os livros de autoajuda não estão totalmente errados, mas meias-verdades. E como meias-verdades, não devem ser encaradas como exatidão absolutas. Isto porque, num momento ou noutro, todos precisamos de uma palavra de encorajamento ou de desafio. O problema começa aqui, quando não sabemos distinguir que os influencers mostram a vida como teatralidade. São frações do que realmente vivem e algumas vezes é encenado e varia consoante as modas.

Mais do que serem encenações, este tipo de conteúdo coloca uma pressão enorme na pessoa que assiste. Ao fim e ao cabo, é defendido que a felicidade só depende de nós mesmos. Se ainda não progredimos na carreira, não é por falta de competências, é porque estamos com medo de dar o salto ou porque desistimos quando estávamos quase a conseguir. A vida é vista como sendo totalmente controlável em todos os seus aspetos.

Aqui podemos ver um pouco como a Humanidade vai “progredindo”. Os nossos antepassados, aparentemente, não tinham problemas como os que enfrentamos. O foco era eternizarem-se. Por isso experimentavam qualquer coisa para poderem viver eternamente, evitando a velhice e a decadência. Qin Shi Huang, o famoso imperador chinês, com o túmulo protegido por soldados de terracota, morreu na ânsia de encontrar este elixir, bebendo mercúrio. Como ele, outros imperadores e cientistas deram a vida procurando prolongá-la. E como ele, muitos “perdem” a vida submetendo-se à tirania da felicidade.

A Ordem dos Médicos afirma que no primeiro semestre de 2022 foram vendidas cerca de 10,9 milhões de embalagens de ansiolíticos, sedativos e antidepressivos (equivalente a distribuir uma caixa por pessoa que vive em Portugal), numa média diária de venda de 59 732 embalagens por dia. Estamos no topo da tabela de países da OCDE no que toca ao consumo de antidepressivos; em calmantes e medicação para dormir, em média, gastámos mensalmente em 2021 cerca de 6,45 milhões de euros, que se traduzem em 15,18 milhões de embalagens com receita médica e 712 mil embalagens em venda livre.

Não quero demonstrar que a causa das crises de ansiedade e aumento da depressão é causa das redes sociais ou dos conteúdos de autoajuda. Também não defendo que devamos culpar quem se dedica a partilhar a sua vida, ainda que encenada. O que demonstro é que existe uma exploração deliberada das emoções e expectativas individuais em proveito próprio (inclusive exploração económica, porque o mercado da felicidade vale 3,8 biliões de euros1). Basta ouvir ou ler um pouco para percebermos que se não estamos na melhor versão de nós mesmos, é culpa nossa. Não temos o mindset de vencedores. Se não alcancei o que tanto desejo, é porque há um problema com o Eu e isso tem de ser alterado. Que felicidade poderia ser esta, que nos mantém reféns de uma busca incansável? Porque tem a felicidade depender de bens materiais?

Independentemente dos princípios que animam cada um, reconhecer que precisamos de outros para nos realizarmos, é um ponto de partida. A felicidade pode ser individual, mas de que adianta ser feliz e estar só numa ilha?

1) Sim, 3 800 000 000 000 de euros

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Davide Morais Pires
Cresceu no campo a pensar na cidade e agora que está na cidade só pensa no campo. Apreciador de café, mas isso não quer dizer que sonegue um bom chá, preferencialmente preto, para iniciar uma conversa interessante. É aluno de mestrado em Relações Interculturais e autor do livro Ecce Homo, editado por Poesia Fã Clube.

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