Uma destas noites, enquanto dormia, num dos grupos que faço parte numa conhecida aplicação de mensagens, duas pessoas constituintes do grupo, aparentemente do nada, iniciaram uma discussão (não conforme a definição original da palavra) acerca de uma das guerras actualmente a ocorrer no planeta.
Não direi que foi uma troca de argumentos, porque enquanto uma das pessoas assumiu uma posição ponderada, tentando demonstrar o seu ponto de vista, a outra pura e simplesmente assumiu uma postura agressiva e até ofensiva, tentando desconcertar o seu oponente chamando-lhe adepto de um conhecido partido de extrema-direita que recentemente ganhou protagonismo em Portugal.
Tendo verificado dois possíveis assuntos para o presente artigo, e para não acicatar susceptibilidades relativas a guerras em curso (que isto de conversar acerca de posições sobre guerras anda quase como uma discussão futebolística) decidi-me pelo outro: a forma de discutir temáticas.
(NOTA do autor: Porque estou com a sensação que vou acabar no outro tema?)
Discutir, verbo transitivo
“analisar e trocar ideias sobre um assunto com uma ou mais pessoas de maneira a chegar a conclusões”
In Infopédia, Dicionários, Porto Editora (‘online’)
Conforme uma das definições da palavra, a discussão é uma troca de ideias, argumentos, ou conceitos, no sentido de, de forma aberta e construtiva, chegar a um consenso, conclusão, ou ideia definitiva concisa sobre um determinado tema.
Este processo expressa de forma implícita a necessidade dos envolvidos na discussão de aceitarem e considerarem os argumentos ou ideias dos restantes envolvidos, adicionando-a ao seu raciocínio, construindo assim, conjuntamente, uma ideia ou argumento melhor, mais consistente, mais adequado à realidade.
Infelizmente, no mundo polarizado em que vivemos (ver artigo Consciência Social), a discussão de uma qualquer ideia terá sempre uma envolvência polarizada. Esta polarização (chamemos-lhe “clubite” ideológica, porque se aplica a ideias) impede, de forma mais ou menos velada, a verdadeira discussão de ideias e argumentos, e consequentemente a evolução do grupo, e ultimamente, do indivíduo.
Esta regressão, infelizmente, tem-se expandido à maioria das estruturas de disseminação de informação globais, seja a Internet (com fenómenos como as fake news, e afins), seja as ideologias sociais e políticas (o fenómeno do wokismo, e do extremismo político-religioso, seja ele de que facção ou seita for), seja o clássico politicamente correcto (que é mais social do que político) que vemos nos noticiários e na conversação humana comum.
Esta regressão está intimamente associada ao parecer e à imagem social do indivíduo. Exprime-se de uma miríade de formas, entre elas as dependências dos indivíduos do fútil e frívolo, os objectos, os fenómenos de manada, os grupos, minando todos os processos de evolução possíveis.
Como nos demonstrou Darwin, todos os fenómenos evolutivos estão associados a processos de adaptação à mudança, ao incómodo, à incapacidade nominal do indivíduo-sistema de lidar com a situação, mudando para melhor se adequar à situação.
Qualquer discussão implica este fenómeno adaptativo, de melhoria contínua, Kaizen, ou como lhe queiramos chamar, e uma necessidade do indivíduo de compreender a estagnação como tal (os próprios argumentos como fechados), e crescer para a situação.
Neste momento sociopolítico do mundo estamos polarizados e consequentemente estagnados. Os indivíduos e consequentemente os grupos, preocupam-se demais com o que é a aparência zeitgeist do momento, e de menos com a melhoria, mesmo que esta implique uma “travessia do deserto”.
Estagnámos. E uma larga maioria recusa-se a reconhecer que isso sucedeu, e que o “melhor para todos” não pode de forma alguma agradar a todos, e que é algures neste processo que avançamos.
Não é para AQUI ou ALI, como alguns alegam. É para um sítio qualquer que ninguém consegue dizer muito bem onde é, mas é. Existe. O caminho é ziguezagueante, difícil, atravessa montes e vales, desertos e oceanos, mas existe. Engloba-nos a todos, mesmo que não o reconheçamos ou concordemos, mas é nesse processo “discussional”, na verdadeira acepção da palavra, que o trilharemos.
E não falei da ignorância histórica da “clubite” das guerras.