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Educação

Decidir sem bola de cristal

Nesta altura do ano escolar, sendo um tempo regular, começariam os testes de orientação vocacional para os miúdos do 9º ano.

Algumas décadas passadas, mas presente como se fosse hoje, também eu efetuei os testes, mas para minha decepção, revelaram-se mais confusos e menos esclarecedores, contribuindo não para uma decisão, mas para o incremento da ambiguidade entre áreas distintas. É em situações como esta que me justifico com o meu zodíaco, gémeos, rei da incerteza e da ambivalência. Hoje sou mãe e, mesmo não sabendo de que forma posso ajudar, ou sequer se o meu filho precisa de alguma orientação, já que parecem ser muito nítidas as suas pretensões, não consigo deixar de pensar no tema.

Há quem diga que a escolha é feita muito precocemente. Não concordo, até porque o caminho é longo e não poderíamos esperar pela 3ª década de vida para efectuar opções basilares. A escolha é progressiva, como os ramos duma árvore, mas tem de se optar por uma caminho, onde se possa efectuar uma formação específica em profundidade, distanciada da generalização dos primeiros anos.

Hoje, ao contrário de antes, os miúdos têm muito mais informação, nomeadamente sobre possíveis profissões a que possam aceder na área que preferem. Há uma série de profissões recentes, sobretudo ligadas às tecnologias e ciências, e outras estão ainda embrionárias, e é vasta a amplitude de tarefas. Nesse campo, reconheço que, à data, pouco mais conhecia que as profissões mais convencionais, e recordo-me do espanto manifestado quando uma amiga mais velha, recém-licenciada em Matemática Aplicada, começou a trabalhar na meteorologia, com recurso a modelos matemáticos dos satélites. Todo um mundo a descobrir, longe das profissões clássicas que todos os pais desejavam, à época para os filhos.

Parece-me, indubitavelmente, que há 2 critérios possíveis a ajudar numa decisão que regra geral, compromete toda uma vida, embora se esteja sempre a tempo de mudar, por verificado disfuncionamento, ou por uma necessidade imperiosa de adaptação a um mercado de trabalho em constante desafio e mutação: a vocação e a empregabilidade.

Sem perder noção da questão das saídas e da taxa de empregabilidade, critério mais seguro e objectivo, julgo que é importante, e na minha perspectiva prioritário, valorizarmos a vocação. Isto traduz-se em ir além da matriz quantificada das capacidades individuais de cada um, seus pontos fortes e dons, reconhecendo o extremo papel da apetência natural, normalmente transposta para a apreciação inequívoca por determinado tipo de assunto ou área.

Uma amiga, psicóloga, comentava comigo que muitas vezes os jovens têm desejos que não vão ao encontro, da forma mais adequada, das suas capacidades. Por questões de charme apreendido em séries ou filmes, ou em alguém de quem gostam, têm vontades em que não utilizarão os seus melhores trunfos, mas em que necessitarão usar características em que são menos abonados para conseguir esse intento. Dizia-me ela, que não os corrige, no respeito pela opinião própria, tão só os alerta para que esse será um caminho de maior trabalho, menos instintivo e natural, mas ainda assim alcançável.

Tenho em crer que atualmente os pais estão mais abertos a critérios mais voláteis e menos quantificados, como a paixão e o interesse. Muitas vezes fruto de escolhas seguras que os próprios fizeram, ou eventualmente influenciados pela geração anterior, baseada na efetividade de emprego, querem agora transmitir aos seus filhos uma amplitude de critérios. Longe dos tempos do determinismo profissional, em que se trabalhava toda uma vida na mesma área / função, a ambivalência é um crescente factor de sucesso, e tão mais maleável quanto maior for a entrega e a identificação com uma área profissional. Até porque só se pode ser verdadeiramente bom naquilo que vai ao encontro das nossas características intrínsecas e do interesse quase amoroso no projecto.

Não tenho o segredo para a orientação, e fico feliz por não ter que o exercer, na minha incapacidade de o fazer correctamente, sobretudo quando se trata de questões tão pessoais e condicionantes. Confusa, recorro-me de Confúcio: Escolha um trabalho que você ame e não terá que trabalhar um único dia de sua vida.

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com Pós-Graduação em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Fui cronista na revista Bird Magazine e edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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