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Troca de país e ganha uma perspectiva – Uma experiência de estágio

Leonardo da Vinci não é só um génio do Alto Renascentismo, que se destacou nas mais diversas áreas, mas que é, sobretudo, reconhecido no mundo das artes, enquanto pintor. O seu nome deu origem a um programa de estágios, a nível europeu, que tive o privilégio de integrar.

Esta coisa de ir lá para fora não é só importante como necessária, na mesma medida em que não só nos abre portas, mas, principalmente, a mente. De repente, somos diferentes, porque somos desconhecidos e na diversidade cultural encontramos uma nova oportunidade. Naquele momento, precisamos de crescer mais um pouco enquanto indivíduos, de nos relacionar, de adicionar-nos novos conteúdos, respeitando aqueles que não nos identificam. Recordamos novamente o que é olhar com olhos de criança que vêem pela primeira vez, que observam de modo inocente e simplesmente sorriem. É maravilhoso perceber que tudo pode ser tão simples e que, apesar dos padrões sociais diferentes, não se revelam obstáculos entre nós. De facto, há coisas que são comuns a todos os seres humanos, independentemente da nacionalidade.

Em Torre Pellice (Itália) nevou e eu como não me lembro de algum dia ter visto nevar, era como criança fascinada de olhos fixados no céu, o que me deu largas à imaginação. A mão dançava com os flocos de neve. Ao segurá-los pude constatar a fiel reprodução dos mesmos nas ilustrações que já havia visto, mas que nunca pensei que pudessem ser representados a uma escala tão real. Depois, quando consegui recuperar a fala, resolvi partilhar os meus pensamentos. Numa analogia muito própria, comentei que para mim, naquele momento, os flocos eram como estrelas cadentes que ali tinham decidido cair ao mesmo tempo. Retirei os olhos do céu para olhar os meus semelhantes e encontrei uns pasmados. A boca falou para me dizer: ‘Devias escrever sobre isso, nunca ninguém tinha comparado os flocos de neve às estrelas cadentes, é realmente extraordinária a comparação’.

Ficamos calados. Olhei ao meu redor e reparei que ali, à porta daquele bar, ninguém sequer reparava nos flocos, nas estrelas que caem, no céu que lhes permite, numa base relativamente diária, a visualização de todos os planetas, satélites, constelações e estrelas cadentes que estão sobre as suas cabeças, de modo gratuito, se assim decidirem levantá-las. Conclui que quando temos muito uma coisa, seja ela material, emocional ou, neste caso, de carácter natural, tendemos a desvalorizá-la. ‘Talvez possam sentir o mesmo pelo o mar’ – Lembro-me de pensar. Torre Pellice situa-se aproximadamente a 2 horas de carro do mar, o que faz com que não possam olhá-lo com a mesma frequência que olhava agora aquele céu. No mesmo momento em que me questionava, percebi que também eu, por ver o mar com a mesma regularidade, provavelmente já tinha estado na sua presença sem sequer o observar. Naquele momento o mar estava para mim, como as estrelas e os flocos de neve para eles: usual e banal.

Por mais diferenças culturais que possam existir, há sempre pormenores que nos unem. A mesma desvalorização do que é ‘nosso’, a mesma valorização do que é ‘alheio’. Leonardo da Vinci não só possibilita uma viagem nas suas telas, mas o embarco na descoberta mais profunda de nós. Mais que uma experiência profissional, o programa Leonardo da Vinci é um crescimento pessoal, uma aprendizagem positiva para quem o quiser fazer de mente aberta. Aconselho vivamente a quem tem este bichinho curioso de descobrir para lá das nossas fronteiras, que ultrapasse as físicas e as suas, e que acima de tudo não se deixe prender pelo medo, ou pela atual conjuntura. Independentemente das portas que se abram ou não, são memórias que para sempre recordarás e essas nenhuma ‘crise’ te poderá tirar.

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