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Personalidades

Professor Xavier

Quem me conhece sabe que toco vários instrumentos, ou seja, faço várias coisas ao mesmo tempo, fiz outras e ainda irei fazer mais. Gostei do que fiz, gosto do que faço e certamente irei gostar do que virá. Mas, esta tão poderosa adversativa, mostra que há sempre um lado menos luminoso na minha vida e esse está ligado às minhas incompetências.

Fui ginasta de um clube conhecido e dobrava-me como se fosse de borracha. Ganhei medalhas, convivi com os mais conhecidos ídolos e gostei de todos os momentos. Dava saltos, usava os instrumentos, rolava, voava e tudo o que fosse possível. Joguei todas as modalidades que me davam satisfação, algumas mais do que as outras, mas a pedra no sapato é a patinagem.

Naquela altura, o Jardim Zoológico tinha um ringue de patinagem e trabalhava lá alguém da família, não me recordo quem, que me deu o incentivo: Eu falo com o Xavier e tu aprendes a patinar. Que me dizes? Senti-me em pontas e decidi que era a minha grande aventura. Estava certíssima!

Xavier, o professor Xavier, era um homem deslumbrante. Alto e muito direito, com voz de rebuçado, sabia como lidar com as meninas, até as mais envergonhadas. Eu, fininha e alta, a fazer lembrar um vime, olhava deslumbrada para as meninas de saia curta azul e botas brancas que rodopiavam às suas mãos. Queria o mesmo.

Xavier, de nome completo Francisco Xavier Araújo, nascido em 1892, em S. Tomé, era a imagem da perfeição. Com umas pernas fantásticas e um corpo de bailarino, fazia piruetas no ringue e o meu coração batia a mil. Os olhos ficavam colados na sua imagem e o tempo parava. Aquilo soava-me a paraíso e era para lá que queria ir.

Era impossível não se gostar dele. Homem dotado de paciência sem fim, tinha feito de tudo na vida. O facto de ter a pele preta não foi impedimento para ter jogado râguebi, futebol e críquete quando viveu em Inglaterra. Era barra em salto em altura e foi campeão de boxe na universidade.

Se o rugby vingou neste país a ele se deve e à sua persistência. Para ele não havia impossíveis e também apostou numa outra modalidade, já com uma idade madura, a que lhe juntou a música e passou a ser conhecida e muito apreciada, tomando o nome de patinagem artística. E que bom que assim foi.

Com uma vida cheia, chegado aos 40 anos, aqui em Portugal, voltou-se para a patinagem e vê-lo era um bailado que não parava nunca. Com um sorriso luminoso, educadíssimo e polido, dava lições de luva branca a quem pisava o risco. Era um verdadeiro gentleman, um epíteto que lhe assentava como uma luva.

Junto ao ringue havia um lago onde as gaivotas, barcos onde os casais davam aos pedais e namoravam de olhos colocados nos pés do Xavier, navegavam como se fossem de tule muito fino. Havia ali um íman que nunca consegui entender. E ele, sempre simpático e empático, dizia-me: Guidinha aperta bem os patins e dá-me a mão.

Tantas vezes lha dei que um dia, já desesperado, confessou-me, com grande mágoa: Não consigo fazer nada de ti. Que facada que foi ouvir aquilo. Na verdade, não foi por falta de dedicação dele mas por completa incapacidade da minha parte. Até a fechar as pequenas fivelas laterias dos patins … eu tropeçava.

Ia muitas vezes ao Jardim Zoológico ver a família, como se dizia a brincar. Os elefantes eram imponentes e uma vez um deles, com grande descaramento, apalpou-me a mama direita. Por sorte ainda a tinha. Os macacos roubavam-me os amendoins e as cobras, essas safadas, fugiam de mim. Enfim, aquilo não era o meu melhor lugar para brilhar.

O que não falhava era o abraço e beijinho ao professor Xavier, o homem que sempre acreditou em mim e que mais não conseguiu fazer. Bem que sonhei desfilar com as saias curtas, a rodar até me perder de vez e com as botas brancas a darem cor ao cenário. O sonho acabou em pesadelo.

Aquele homem era uma espécie de deus, para mim. Não sei o que me deu hoje, mas a sua memória está bem viva. Continuei a vê-lo. Depois cresci, fiquei bem alta, mas mesmo assim aquele homem era um colosso. Velhinho, de fato completo e laço, piscava-me o olho quando me cruzava com ele na baixa. Se fosse hoje, em tempos de mi-mi-mi’s, seria uma tragédia, mas ainda bem que fomos felizes à nossa maneira.

Foi técnico de eletrotecnia na Carris e na Companhia dos Telefones. Foi também bancário e professor de educação física. O homem não se cansava de fazer coisas e todas bem. Certamente que deixou saudades entre os colegas, mas a vida é para seguir em frente. Foi o que ele fez. Não parou de ensinar gente a patinar e a Ana Salazar foi uma delas. Mais outra inaptidão minha, a agulha.

Já com 90 anos, que o Xavier era assim como os miúdos que sofrem de bicho carpinteiro, como eu, continuava a prestar auxílio a quem queria colocar as rodinhas nos pés e bailar. Desta vez era no ringue do jardim do Campo Grande e mostrava que os anos não lhe pesavam. Era um deleite para a vista. Algumas vezes o ia visitar e ele, amoroso e brincalhão, continuava a perguntar se ainda queria aprender a rodopiar e deixar a cabeça cair, como eu sonhava fazer.

Uma vez vi uma entrevista dele e falou dos seus sucessos, com as alunas que brilharam em muitas competições. Foi um querido por nunca me referir, a sua nódoa, como dizia a brincar e o meu pai, outro gozão, ainda enfatizava. Felizmente que me ria desta tão estúpida situação, mas vinguei-me uns anos mais tarde. Aprendi a andar de skate.

Lisboa decidiu homenageá-lo, em 1989, uma atitude que só lhe fica muito bem. Uma das artérias, junto ao Jardim Zoológico, ganhou o seu nome e explica o seu contributo para tantos. António Lobo Antunes também o guarda na memória e no seu livro Os cús de Judas, tece o seu retrato com delicadeza, tal como ele merece e como sempre soube tratar todos.

No dia 8 de Setembro de 1987, quase centenário, o querido, muito amado e respeitado professor Xavier, fechou os olhos de vez. Já era bem adulta e nesse dia, quando soube, uma espécie de patins bem duros, com tons brancos e azuis, das botas e saias curtas, por fim, dançaram na minha cara, tal como ele teria desejado que fosse.

Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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