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Auschwitz, nunca é tarde para recordar

No dia 27 de Janeiro, entrei na sala do Nimas para testemunhar mais uma obra prima de Terrence Malick, Vida Escondida, sem sequer me aperceber que nesse dia se comemoravam os 75 anos da libertação de Auschwitz. No dia anterior, tinha também lido um texto de Afonso Cruz acerca da visita que fez ao campo de concentração em Oświęcim. Acabei por só ganhar noção da data quando descortinei no site do Público uma arrepiante fotogaleria dos campos de concentração de Birkenau na actualidade. Como não acredito em meras coincidências estas palavras tornaram-se urgentes.

Nunca será tarde, nem serão demasiados os livros, os textos ou os filmes que sirvam para não esquecermos que morreram seis milhões de pessoas iguais a nós, através da instituição do discurso que disseminou as chamas do ódio nazi. Podia ser o seu pai, a sua mãe ou o seu filho. Bastava para isso que se recusassem a jurar lealdade ao príncipe maquiavélico ou às suas ideias nacional-socialistas. Ou terem nascido com alguma “doença”. Isto é, serem judeus, homossexuais ou ciganos. Porque será que estes grupos continuam a ser alvos demasiado fáceis? O facto destas ideias contra-iluministas sobreviverem até hoje significará que o Ensino ou a Democracia falharam, tal como Platão previra? O que realmente falhou então? Primeiro queimaram-se os livros, depois as ideias e quando já nada restava queimaram-se as pessoas. Estão preparados?

Já ninguém quer ir para a guerra nem morrer pelas suas ideias e somos ensinados que não conseguimos mudar o mundo. E assim vamos morrendo lentamente, para logo de seguida estarmos apáticos mas descansados. Não fará sentido vivermos lutando por algo em que acreditamos? Como George Elliot escreveu “Se as coisas não vão assim tão mal para si e para mim, devemos agradecer aqueles que viveram fielmente uma vida oculta e que descansam em sepulturas que ninguém visita”. Sobrevivemos neste mundo-cão procurando o nosso osso, mesmo que para isso algum animal se torne vadio. Cerramos os olhos porque não é nada connosco e assim nos tornamos pequenos comuns mortais sem pavio. A sofreguidão pela vitória de qualquer jeito é perniciosa.

Nada de mal acontece aos bons, sempre nos disseram. Enganaram-nos e ainda não percebemos bem porque o mundo assim se foi contruindo. Contudo, sobrevivemos nele sem nos lembrarmos que um dia, possivelmente, não haverá mais a liberdade. A maioria nem questiona, segue o caminho cumprindo regras e por medo exclui quem não as aceite. Talvez os vilões de hoje sejam heróis no futuro, mas nem importa. Ninguém quer fazer parte da minoria, ser vilipendiado, atacado ou ultrajado. Então aceita e cala-se, mas as coisas mudam tão rápido tal como os versos de Brecht anunciam, ontem foram eles e amanhã podemos ser nós. Sem alarmismos, todos entendemos que os portões do holocausto se vão reabrindo timidamente através do discurso que apresenta soluções demasiado fáceis para problemas tão complexos. Os idiotas úteis andam propositadamente desatentos ora por ingenuidade ou por preguiça intelectual e só tentam encontrar inimigos para legitimar a sua práxis.

O primeiro passo para voltarmos a acumular cadáveres em pilha, enchermos comboios de perseguidos e seus corpos arderem, será permitir discursos de extrema-direita que nos dividam. “Os ciganos vivem quase exclusivamente do Estado”. Passados 75 anos e após 1,5 milhões de corpos humanos de etnia cigana assassinados, perseguidos, humilhados e excluídos, para alguns os seus fins continuam a justificar quaisquer meios, mesmo que antes tenham escrito teses a criticar o “populismo penal” e a “estigmatização de minorias”. Tal como Hitler desejava uma pureza racial almejando alemães altos, loiros e de olhos claros sendo ele baixo, moreno e de olhos escuros, há entre nós um político tão impoluto e anti-sistema que até se esquece de ter feito parte de um dos maiores partidos de poder nos últimos vinte anos, isto claro, antes de promover dirigentes neofascistas e aceitar saudações nazis em torno do seu novo partido.

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Francisco Mouta Rúbio

Licenciado em Publicidade, trabalha em audiovisual e social media e está sempre rodeado por cultura, futebol e filosofia. Autor do podcast Dedo no Ar.

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