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E (não) foram felizes para sempre.

Há uns tempos, disseram-me:

— Não é amor, é perfeito!

Na altura, eu estava apaixonada por essa pessoa. E não há nada mais cruel do que ouvir a pessoa de quem gostamos dizer que o que está a acontecer entre eles não é amor. Como não é amor? Eu quero estar contigo, tu queres estar comigo, eu sinto-me bem ao pé de ti e tu sentes-te bem ao pé de mim, como não é amor? Como não? Andei a remoer nesta frase durante semanas.

Sempre achei que o amor-perfeito era aquele em que, se fosse preciso, deixaríamos de respirar para passarmos a respirar pela outra pessoa. Era aquele em que os pensamentos ficavam entorpecidos, a visão turva e o raciocínio baralhado. Sempre ouvi dizer que o amor-perfeito era para toda a vida. Assim, se algum dia ele nos batesse à porta, deveríamos convidá-lo a entrar e a instalar-se confortavelmente. Esqueceram-se foi de nos dizer que esses amores de perfeito têm muito pouco. Se seguirmos esta linha de raciocínio posso afirmar, veementemente, que já vivi vários amores-perfeitos ao longo da vida.  Eis o que aconteceu:

Apaixonei-me. Mentira. Fiquei cega por amor. Idolatrei a pessoa. O nosso amor passou a ser a minha principal prioridade. Nada se punha à frente do nosso amor. Nem eu. Fazia tudo para estar disponível, os nossos programas eram perfeitos e quando surgia a oportunidade de irmos jantar fora, se me perguntassem onde gostaria de ir, a resposta era sempre a mesma:

— Escolhe tu!

Não fazia isto para agradar a outra pessoa. Acreditava efectivamente que um amor perfeito, sincero, verdadeiro, era assim. Era feito de ajustes, de cedências, de ponderações e da simbiose profunda entre duas pessoas. Por isso, ficava desagradada quando os meus amigos me diziam que tinha deixado de aparecer, que estava diferente, que não era a mesma pessoa. Um dia, haveriam de perceber que, quando é amor; quando encontramos (o)a tal, as coisas mudam necessariamente. Já não vamos poder fazer os mesmos programas, já não podemos estar tantas vezes juntos, já não isto, já não aquilo.

Isto é a expectativa. O que na realidade acontece é que estes amores, com o passar do tempo, com o acalmar dos dias, tornam-se vazios. Quando um dos elementos do casal insiste em esvaziar-se em prol do outro, acontece isso mesmo, fica vazio de si. Fica sem conteúdo para oferecer de tanto dar. Irónico, não é? Ninguém, em condições ditas normais, quer ficar ao lado de alguém que, a única coisa que tem para oferecer, é a concordância com tudo o que essa pessoa faz e/ou diz.

É verdade que a única regra no amor é não ter regras e também é verdade que o amor deve ser vivido sem peso, conta e medida, no entanto, quer-me parecer que a única forma disso funcionar, é não doar o amor, mas sim partilhá-lo. Se nos esvaziarmos de nós, ficamos sem nada para partilhar. O segredo de um amor perfeito é não termos de procurar a felicidade no outro, mas, sim, partilhar a felicidade que preservamos dentro de nós.

Quanto à frase que me disseram? Hoje, considero-a uma das melhores declarações de amor que já me fizeram.

Júlia Domingues

Jurista, 42 anos, autora da página @soquenao.jux.

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