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Permita-se sofrer

A nossa sociedade está cheia de estereótipos para que se ceda com facilidade. Um dos maiores debates é a eterna juventude, o querer ter o domínio da vida e não deixar passar os anos, esses fazedores de rugas e de memórias. Ser jovem para sempre pode ser um bom título para um livro ou um filme, mas a vida não quer saber disso. Por mais retoques que se façam, a vida envelhece todos, sem excepção.

Outro dos estigmas é a felicidade. Há que a vender em comprimidos que não existem, em líquidos que não foram inventados e em ideias que são tão absurdas como querer que os gafanhotos cantem ópera. Ser feliz é um estado de espírito e não um objectivo de vida. A felicidade pode ser servida em retalhos de tempo, em pedaços que se unificam e em tempos sem retorno.

Quem é sempre feliz certamente que não sabe o que está a dizer. A vida tem altos e baixos, montes difíceis de atingir e vales que fazem cair a pique. A dor e o sofrimento fazem parte do dia a dia, do crescimento humano, da forma mais certa de se tornar pessoa. Se não conhecer o lado menos doce da vida, de que serve tentar mudar? As colheradas de felicidade, as que são servidas nas redes sociais, nos meios de comunicação social, não passam de falsas noções da realidade que enrolam os incautos.

Sofrer, ser estoico, é deixar que a energia percorra o caminho que arrasta consigo o tóxico que estava a destoar. Cerrar os dentes e fazer forças com os punhos fechados de nada serve, se se continuar a acumular tudo o que não se quer guardar? Deixe ir tudo com a mesma vontade com que sorri sem vontade e, faz um esforço para ser civilizado, com quem é obrigado a conviver. Solte as pedras que se acumularam e que precisam de sair.

Abra a sua janela de força e liberte os esqueletos que estavam arrumados, com datas ou não, nos armários da sua vida. Sinta a sensação de ser leve e de ter asas metafóricas que crescem em si e que lhe permitem voar. Vá até onde quiser ou conseguir ir, mas não acumule o que não quer. Essas dores são a raiz das doenças e de males que ainda precisam de ser catalogados com rigor e precisão.

Chore. As lágrimas são poesias que não precisam de ser escritas, mas apenas ditas por sentir. Deixe-as seguir o caminho que quiserem, abrace-as se assim o entender e estique os braços de satisfação. Chorar é limpar a alma, é ter uma conversa alegre com os fantasmas que se instalam sem autorização, é sentir o ar que se purifica e que regressa cheio de cor e alegria. Chorar não é uma fraqueza, mas, sim, uma força maior que nem todos conseguem alcançar.

Não se contenha. Acumular desgostos, tristezas e lágrimas nada tem de bom. Todos juntos fazem um festim de negatividade e de horror. Que importa que doa se um dia vai passar? São as marcas que não se esquecem, mas que tendem a querer ficar. Rasgue os papéis onde escreveu as cartas de amor que nunca colocou no correio, onde gravou as raivas que ia sentido, onde deixou ficar os sonhos que nunca foram cumpridos, onde não quer voltar nunca mais,

Siga em frente, mas sofra tudo a que tem direito. Grite, chore, arranque os cabelos e faça os cortes que entender. Depois, quando a tempestade se for embora, a bonança chega e abraça com ardor o que restou, o lado solar que quer voltar a sorrir e recomeçar a jornada onde o caminho para a felicidade pode ainda não se conseguir. Sofra sem culpas. Seja feliz!

Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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