«Dedico-lhe o meu silêncio», de Mario Vargas Llosa

Uma despedida nostálgica da ficção e uma ode à identidade peruana

Dedico-lhe o Meu Silêncio (Quetzal, 2023) encerra mais de seis décadas dedicadas às palavras e um Prémio Nobel da Literatura. Aos 87 anos, o autor peruano anunciou este livro como uma despedida da ficção. É, de facto, a última nota. Um romance melancólico, irónico e humano. Vargas Llosa oferece-nos um tributo à arte, à memória e à identidade cultural do Peru.

A música crioula — mescla de influências africanas, espanholas e indígenas — acompanha toda a trama. O protagonista, Toño Azpilcueta, é um modesto professor que se dedica a pesquisar a música, que considera o coração do seu país, escreve artigos para revistas pouco conhecidas e vive um casamento amorfo. À beira da frustração, ouve o guitarrista Lalo Molfino — personagem do seu romance Travessuras da Menina Má —, que considera um génio, e decide escrever, obsessivamente, a sua biografia, já que o guitarrista morre, pouco depois, no anonimato e na miséria. Azpilcueta acreditava que a música crioula poderia ser a ponte para pacificar o seu país, fragmentado por feridas raciais, sociais e políticas. Uma utopia comovente e trágica. O romance plasma as ilusões e frustrações do protagonista e, talvez, do próprio autor. Recordemos que a Lima dos anos 1990, cenário do romance, é marcada pela violência do Sendero Luminoso e pelo autoritarismo do regime de Fujimori. É o contraste entre a violência política da época e a pureza idealista de Toño, que realça a dimensão trágica da sua utopia: acreditar que certo tipo de música popular pode pacificar um pais. Toño Azpilcueta é um anti-herói, ingénuo e sonhador, o que o torna comovente. Intelectual medíocre, é retratado com ironia, mas, também, com ternura. Vargas Llosa recusa o cinismo, como quem reconhece na ingenuidade alheia o reflexo das próprias utopias perdidas.

O romance situa-se entre o ensaio e a ficção, a erudição e a leveza. Alterna capítulos de narrativa tradicional e trechos ensaísticos que reproduzem o livro que Toño escreve na história. Temos, assim, uma espécie de metarromance. Há uma fronteira entre a voz do autor e a da personagem, que se torna difusa. Ambos se questionam se a arte pode redimir uma nação. Esta fragmentação exige atenção do leitor para transitar entre registos reflexivos, intimistas ou quase documentais.

A música crioula é a alma do romance. É o eixo do qual o autor reflete sobre a identidade peruana, feita de contradições. Os ritmos populares — valsas, marineras, polcas, huaynos — evocam um país mestiço e complexo, marcado pela coexistência conflituosa entre tradições, raças e classes. É Lalo Molfino, músico genial, trágico, enigmático e esquecido, a alegoria de uma nação rica em talento e cultura, mas incapaz de reconhecer a sua própria grandeza.

O título do romance é genial. Lalo diz à cantora Cecilia Barraza — inspirada numa artista real — «dedico-lhe o meu silêncio». Além de uma confissão amorosa, este é um gesto de renúncia, até de epitáfio simbólico. É o silêncio do artista perante a indiferença do mundo. É o silêncio final de Mario Vargas Llosa, despedindo-se da ficção com a serenidade de quem já não precisa de dizer mais. É, sobretudo, em qualquer contexto, uma frase belíssima.

Este não é um romance denso e estruturalmente complexo como Conversa na Catedral (1969). Aqui, a escrita é mais contida e linear, mais serena e confessional. Mas não menos sofisticada. Não encontramos a experimentação formal que servia a denúncia política, mas o gesto reflexivo, a introspeção moral. É verdade que, por vezes, a narrativa arrasta-se, especialmente nos momentos mais ensaísticos. Mas talvez o encanto do livro se encontre não na procura da perfeição formal, mas num romance humano, imperfeito. De qualquer forma, a serenidade é enganadora, já que deixa entrever uma crítica feroz à crença de que a arte e a cultura podem ser formas de redenção coletiva. Uma autocrítica tardia? Vargas Llosa parece admitir que nenhuma ideologia, arte ou estética é capaz de redimir uma nação ferida. No fundo, encontramos uma reflexão sobre a impotência da arte e também sobre a sua necessidade.

Um romance profundamente humano, de reconciliação e consciência da finitude. É uma despedida comovente e, ao mesmo tempo, uma celebração da arte como gesto de resistência.

Mario Vargas Llosa despede-se, dedicando-nos aquilo que resta quando todas as palavras se esgotam: o silêncio. Esse silêncio pode ser a forma mais pura de continuar a dizer.

Nota: Este artigo foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

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