As ironias do mundo do trabalho

Trabalhar a fazer algo que não se gosta não é  bom, trabalhar com gente que não se suporta também não, mas e as duas coisas juntas, não é pior?

A minha primeira experiência no mundo do trabalho foi péssima (foi através do centro de emprego e éramos duas candidatas, estávamos á  experiência para ver quem era a mais qualificada), aconteceu numa gráfica a dois quarteirões de casa, o trabalho era maçador e os colegas horríveis (olhavam-me de alto a baixo e falavam nas minhas costas, sobretudo porque a outra “colega” que entrou comigo era amiga de uma fulana que trabalhava lá). Escusado será dizer, que eu não fiquei com o lugar.

Esta má experiência deixou-me tão amedrontada que decidi retomar os estudos (na altura só tinha o 9º ano), optei por um curso técnico profissional de 3 anos, na altura foi a melhor escolha que podia ter feito, não estou nada arrependida.

Acabado o curso lançei-me então à procura daquele que seria o meu primeiro emprego a sério, um hospital privado foi o que me calhou na rifa. Trabalhei lá por 10 anos (alternava entre call center e recepção) com colegas excelentes, havia entreajuda e amizade. Claro que não era tudo rosas porque já se sabe que o ser humano é um bicho complicado. Eu detestava o serviço, os horários por turnos e lidar com clientes ainda para mais na área da saúde também não era uma tarefa fácil, era complicado e esgotante. Eu agora sei de facto que não tenho jeito nenhum para lidar com pessoas, falta-me, digamos assim, um pouco de paciência. No entanto, aguentei 10 anos da minha preciosa vida a fazer uma coisa que detestava (á conta disso fiquei com uma depressão que me fazia chorar todos os dias) mas continuei, que remédio, o facto da equipa com que trabalhava ser excelente ajudou muito. Agora quando olho para trás consigo perceber porque fiquei lá tanto tempo e de vez em quando até tenho saudades.

Hoje trabalho longe da área da saúde e não lido com o público, em contrapartida tenho alguns colegas não tão agradáveis e que nos princípios me fizeram sentir um pouco mal. Ainda tentei arranjar outra coisa mas era mais do mesmo. Os anos foram passando e as coisas começaram a ficar melhores, agora o ambiente até é suportável ou, por outras palavras, aprendi a lidar com as pessoas que me rodeiam.

Ter o melhor dos dois mundos, um emprego que nos agrade + colegas encantadores pode ser um pouco difícil quiçá até um pouco improvável para a maioria da população, porque vai haver sempre alguém com quem não nos entendemos tão bem e um serviço que não seja tão agradável de fazer. Por isso, o que nos resta é tentar da melhor maneira possível levar as coisas a bom porto, ou seja, tentarmos ser mais flexíveis e focarmo-nos no que é realmente importante, que na minha humilde opinião é a nossa saúde mental e o dinheiro que precisamos no final do mês para pagar as contas.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico.

Share this article
Shareable URL
Prev Post

O futuro dos nossos filhos

Next Post

Estará o equilíbrio perdido?

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

Responsabilidade

Estes últimos dias ganharam protagonismo por um conjunto de notícias que envolvem jovens que foram maltratados,…