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Os Putos – contos de Altino do Tojal

Foi muito recentemente, já passada a terceira década da minha vida que tomei conhecimento do autor Altino do Tojal, nome literário de Altino Martins da Costa. Era Inverno e dentro de uma pequena casa, de tecto alto e paredes recheadas de pincéis, ferramentas, chá e livros, escutei pela primeira vez o conto “As Garças”. A mulher, de cabelo curto e cinzento, sorria e lia em voz alta, as duas curtas páginas, enquanto lá fora o som do riacho, debaixo da ponte, cantarolava e o frio da neblina ameaçava entrar pela porta envidraçada. No dia seguinte, sem perder tempo, corri à biblioteca. Li e reli e voltei a reler aquele conto minúsculo sobre um homem, um lobo solitário, que não se considerava humano, por desdém à humanidade. Um extraterrestre, talvez, deixado no Planeta Terra por engano.

“Cumpre informar­vos de que não sou de cá; sou de fora, do alto. Fui destinado a um cometa pantanoso, com muitas flores e um carvão aceso, gravitante, a alumiar. Afinal, eis­‑me aqui. E sabeis porquê? Porque a garça de nívea plumagem que me trouxe suspenso do bico fazia o seu primeiro recado, era bisonha no mister, pouco entendia de orientação celeste.”

Esse desprezo, acentuava-se ainda mais em relação às crias dos homens, que eram, a seu ver, a epítome da pior coisa imaginável.

“Sim, abomino as crias dos homens — esses monstrozinhos vorazes e gesticulantes, sempre sentados nas próprias fezes, sempre de ranho no nariz, sempre de goela escancarada. Quão mais grácil e aprumado não é, por exemplo, um vitelo!”

Avista uma cria de homem, “(…) sentada na lama, com as pernas cruzadas, nua como uma lesma, tremendo.”

“Esgueiro­‑me, olhando­‑a de soslaio, com o coração a rufar. Já me disponho a estugar o passo, a refugiar­‑me no mato, quando noto que ela me sorri. Algo bole cá dentro. Saber­‑me o alvo de um sorriso!… Neste planeta!… Sinto­‑me tão estranho, tão estranho(…)”

Contudo, eis que, confrontado com a inocência da criança, que ainda mal se aguenta em pé, o mundo deste homem muda e deixa-a repousar no seu peito.

“Aprumo­‑me vivamente, os meus pendentes e o rosto derrubado para trás. Ela aí vem, dependurada! Não cheira a leite, cheira a cebola e a musgo. Sacudo­‑a com energia, com asco, sempre com os braços pendentes e o rosto derrubado para trás. Ela agarra­‑se com mais força ao meu pescoço, arredonda grandes olhos azuis, parece dizer: — «Segura­‑me, que caio!» Seguro­‑a, cada vez mais espantado, cada vez mais estranho, respirando hálito de cebolas e de musgo. Quando, por fim, reagindo àquela vergonhosa fraqueza, me disponho a repor as coisas na ordem inicial, verifico que a criança, de bonitos cabelos loiros, dorme tranquilamente no meu ombro.”

O conto termina, a jeito de prólogo (e eu já num pranto emocionado):

“Envelheço. É um facto notório, provam­‑no os charcos depositados pelas chuvas, os trémulos charcos. E sabeis? Há noites em que, deitado de costas no casculho, os dedos entrelaçados sob a nuca, a mordiscar uma ervita, olhando cismadoramente o Infinito, me pergunto, inquieto, se a tal garça de nívea plumagem seria mesmo bisonha no conhecimento das rotas estelares.”

Depois da minha sede saciada, passo aos outros contos deste livro que tenho entre mãos, desta colectânea intitulada Os Putos e deleito-me com a rudeza, a brutalidade, a descrição da realidade nua e crua dos povos rurais portugueses dos anos 60.

No conto “O Campo de Judite”, numa aldeia plantada na fronteira com Espanha, uma menina dedica-se diariamente a limpar um campo de rochas, porque acredita que um dia o seu pai irá voltar num avião e aterrar ali. O passatempo local dos catraios, depois da escola, é atirar pedras desde o muro para o descampado, explica o dono da estalagem: “Descanse, nenhuma pedra acerta na rapariga. Quanto a isso esteja sossegado. O povo é cuidadoso (…). É cristão. (…) E o povo, coitado, precisa de se distrair. A terra é pobre em distracções, não tem televisão nem nada.”

No conto “Matraquilhos”, rapazolas descalços (apenas o menos enfezado calça sapatos) jogam um renhidíssimo jogo de matrecos, para logo “(…) dois mecânicos de peitaça cabeluda e braços musculosos(…)” se apoderarem do jogo. “Vestem fatos-macacos sujos de óleo.” Um é ruivo, o outro moreno, mas um dos rapazes não quer largar mão.

“Queres fazer de menino bonito, é? Pois olha que trouxe de Angola um sagui menos feio do que tu, fica sabendo. O mecânico das melenas à índio solta uma gargalhadinha enquanto ensaia vigorosamente fintas no bilhar. O ruivo prossegue:Aprende a respeitar os mais velhos, piolhoso! Se não te dão educação lá em casa, eu dou-ta, ai dou dou! Dou-te um chuto nesse cu fedorento que te ponho no Mar das Tempestades a apanhar rochas lunares!”

É a lei do mais forte que predomina e começa então “(…) um jogo de violência talvez nunca vista em qualquer bilhar de matraquilhos. São tiros de pedreira! Que digo eu?! Trovoada! Quanto estardalhaço! Os miúdos olham pasmados, até o dos sapatos.”

“Oh!, mas aparecem quatro senhores de barbas e óculos… Eu disse quatro barbas, disse? Pois menti. Óculos, sim, são de facto quatro (e dois cachimbos), mas barbas são só três; o quarto senhor tem bigode, um bigodaço loiro que o senhor cofia com ar satisfeito, como bigode verdadeiramente digno de ser cofiado. —Viva, Rodrigues – diz ao mecãnico ruivo, em voz amena, um dos senhores (não o do bigode). — Importas-te que jogue duas partidas com estes meus amigos? O ruivo apruma-se, une os calcanhares: — As que o senhor engenheiro Lasaige quiser! Ora essa! Faça favor! Nós até já nos íamos embora, não íamos, Armindo?”

Afastam-se agora os dois homenzarrões, de mãos na algibeira, cabeça baixa. Um deles, o ruivo, choca com um transeunte. “-(…) Vem um homem de defender a pátria, quatro anos longe da terra, e acontece-lhe disto: apanhar um encontrão do primeiro palerma que lhe aparece! Eu, um comando, medalha de mérito militar com palma! Estás a ver isto, Armindo?! Olhe, seu pacóvio, se não fosse por respeito aí à sua senhora, ou lá o que é, rachava-lhe já o focinho! Agradeça à sua senhora!”

Altino do Tojal é exímio no descrever das vidas das gentes mais pobres, evidenciado pelos diálogos crus e realistas. Escreve de forma credível e é uma delícia ler e reler os seus contos, que são muitos. Nunca foi de autopromoção e era conhecido como “evitador de cerimónias, o que não vai a conferências, o que jamais deu uma entrevista, aquele que nunca aparece na televisão – eu, o esquivo, o solitário, o bicho do mato.” Há menos de um ano que nos deixou para se juntar ao reino dos imortais. Porque o que é o corpo senão um recetáculo do espírito? Altino vive através dos seus contos e do meu livro da biblioteca, permanentemente requisitado, que descansa agora na minha mesinha de cabeceira.

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Catarina Loureiro

Autora. Artista. Cismadora. catarinaloureiro.wordpress.com

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