A maior tendência deixou de ser moda!

As tendências já não se seguem, sublinham carácter.

De quem o tem e de quem o procura através de uma afirmação de moda.

Se nos anos noventa nos habituámos a ver edições especiais de revistas de moda que ditavam as tendências e agrupavam de forma a que todos tivéssemos uma ideia do que seria moda. Como se precisássemos desesperadamente de referências.

Manchetes como “directamente das passareles” deixaram de fazer sentido quando comparamos com os dias de hoje. As tendências já não nascem nos desfiles, e todos os dias temos desfiles de tendências através de redes sociais, influencers e um sem fim de exemplos.

Antigamente as tendências duravam uma estação inteira, agora não, alguém sopra num story e há uma nova tendência.

Precisávamos de nos identificar, sentir pertencentes a algum grupo, assim como continuamos a precisar desde o tempo das cavernas até ao mundo presente de nos agrupar. Queremos uma tribo há qual nos sentimos pertença. Mesmo aqueles que dizem que são ecléticos estão a escolher fazer parte de um grupo. Mas vamos por partes. Embora, hoje em dia a cada segundo nasçam várias tendências, as marcas continuam a investir os seus quantos milhões em cool hunters.

O que são Cool Hunters, pois bem, na minha escola de moda fui obrigada e com muito orgulho em estudar Cool Hunting, que é nada mais, nada menos, do que tentar perceber como é que a cabeça da sociedade funciona no que diz respeito a moda. Existem um conjunto de factores que nos permitem ter ideia do que vem a seguir em termos de tendências. Os factores que determinam uma tendência são aparentemente simples: história da moda, tudo é cíclico não nos podemos esquecer. E quanto melhor conhecermos a história mais depressa podemos pressentir o que vem a seguir. Entender os comportamentos humanos, as necessidades. Estar atento ao que se passa no mundo, desde o que vemos nas notícias, nos países que são especialistas a exportar ideias consumidas e copiadas pelo resto do mundo. E aqui culpem os Estados Unidos à vontade. Mesmo com a globalização, a internet e tudo e mais alguma coisa, posso assegurar-vos o seguinte. O que hoje é moda em Nova Iorque, chegará a Portugal de forma a ser uma tendência clara e massiva, impossível de ignorar apenas e somente no ano a seguir. Em Paris chegará em seis meses, e aqui em Portugal é como vos digo, chega com um atraso de um ano.

E está tudo bem. Aquilo que hoje está a ser muito moda nas ruas de Nova Iorque, não também vamos achar muito moda em Portugal daqui a um ano. Vamos a apostas?

Só há uma geração que se nos debruçarmos sobre ela, eles já têm acesso a esta informação e funcionam como uma onda ainda baixinha destas tendências que demoram a incorporar no nosso país. E vamos a eles: rapazes e raparigas entre os doze e os dezoito anos. Pois é. São eles que sabem andar nisto, não somos nós. Eles são a geração mais bem informada e mais on-time no que diz respeito a moda. Querem saber o que será tendência no Verão de 2023? Convido-vos a irem para a porta das escolas dos grandes centros urbanos como Lisboa e Porto e terão a resposta.

Para os cool hunters é muito importante ficarem atentos a vários factores. Verem com olhos de ver o que os miúdos seguem em termos de tendências, quem são os cantores, o tipo de música, os livros, as séries e acima de tudo, como é que consomem as informações. A forma como as pessoas consomem e se deixam influenciar pelas tendências é tão importante como as próprias tendências. É como perguntar quem é que nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha. E aqui há que colocar todas estas valiosas informações, analisar comportamentos humanos no decorrer da história mundial, entender o avanço e principalmente a velocidade com que as coisas nos chegam, são consumidas e depois reproduzidas para os outros.

As marcas contratam cool hunters para que eles viagem, observem pessoas e lhes digam possíveis tendências entre dois a cinco anos de avanço.

Marcas de tecnologia precisam tanto de cool hunters como a moda, por exemplo.

Os gigantes do fast fashion conseguem pagar a peso de ouro a quem esteja dentro de um circuito restrito de pessoas que têm acesso a grandes maisons de moda. Objectivo: assim que estão a desfilar, na mesma hora está numa montra da Zara. E aqui dizemos nomes sem sentimento de culpa. O que não falta na internet são histórias de designers que tentaram processar o elefante imortal do fast fashion. E de nada lhes serviu, os advogados usam um argumento extremamente válido.

O designer X não criou este corte, este modelo, esta silhueta. Já foi inventado nos anos 30, por exemplo, pelo designer Y. Se a Zara se está a apoderar da sua criação também este designer se apoderou da criação de outro designer do século passado. E contra factos não há argumentos.

Um dos meus professores da faculdade contava-nos que um dia foi contratado para fazer o logotipo de uma marca. Entre uma certa epifania e vontade de criar, lá teve uma ideia que lhe pareceu brilhante. No dia seguinte apresentou-a à empresa e eles adoraram. Foi aceite e teve sucesso. Um ou dois anos depois fez uma viagem à Austrália. E das primeiras coisas que viu foi um logotipo igual ao que tinha criado. Não, ele não foi copiado. Aquela marca já tinha aquele logotipo há cerca de cinquenta anos. Ele sabia que nunca o tinha visto antes, mas percebeu que ideias iguais por mentes diferentes acontecem a todo o instante. Somos humanos.

E é exactamente por sermos humanos que as marcas continuam a precisar de cool hunters para saber o que humanos vão querer daqui a uns tempos. São contratadas pessoas para que se perceba o que é que as pessoas vão querer usar daqui a uns tempos. E daqui a uns tempos as pessoas vão querer usar aquilo que as pessoas que os estudaram criaram para ser moda. Louco, obsessivo, conturbado, confuso?! Assim somos nós. Humanos, simplesmente humanos. A grande tendência continua a ser viver num mundo que hoje diz que a expressão “Carpe Diem” é uma seca e está ultrapassada, mas que daqui a vinte anos a vai usar em t-shirts estampadas com uma técnica inovadora e que possivelmente vão custar um salário mínimo depois de alguém famoso a usar.

E aqui não há cool hunter que nos salve. Hoje tudo é tão rápido e o mundo anda tão depressa que o melhor foi tornar tudo tendência ao ponto de todos terem uma razão mais do que válida para comprar. Aumentaram a rédea no que diz respeito a tendências, aumentaram o círculo de hábitos de consumo e a rédea que dita as tendências é leve, ténue, frágil, mas sem dúvida que continua a ser mais do que eficaz.

Hoje em dia nós não queremos comprar moda, queremos comprar experiência de compra.

Não queremos o vintage, queremos o poder de sentir o exclusivo que ninguém tem vestido em nós.

Não queremos usar o que toda a gente veste, a menos que sejamos do grupo dos que seguem a Carlota, a Carolina, a Madalena que têm vidas aparentemente perfeitas. E usarmos aquele top da Zara que elas usam no post que fizeram na Comporta acompanhadas do marido sorriso Colgate, o anel de noivado e o Rolex que se destaca no meio das pulseiras Parfois… não podemos, nem somos parte daquela moldura perfeita… mas termos aquele top da Zara igualzinho ao dela desperta um sentimento inconsciente em quem o compra.

Não é por acaso que a Chanel por exemplo obtém lucros extraordinários dos seus produtos beauty.

As mulheres querem ter uma mala 2.55 da Chanel, mas não têm dinheiro para a comprar. No entanto, compram o perfume, compram o batom. Sentem-se uma mulher Chanel, sentem-se valiosas e poderosas por terem a possibilidade de ter em sua posse um artigo de luxo.

Este comportamento humano é generalizado. E os números não mentem. Podíamos ficar aqui eternamente a discutir todo este tema de tendências e principalmente os hábitos de consumo da sociedade, no entanto, estou em crer que sairíamos desta conversa esgotados e sem uma solução que agradasse a todos.

E enquanto aqui estamos, eu a escrever e vocês a ler, em alguma parte do mundo estará a ser descoberto um fenómeno na internet, alguém se tornou famoso da noite para o dia porque fez um reels viral, um top Dior nos anos noventa acabou de aumentar o seu preço no mercado vintage porque alguma irmã Hadid o usou a sair de um restaurante no Soho, enquanto uma mãe de três crianças no Bangladesh está há doze horas a trabalhar para no final do mês receber um salário equivalente a vinte cinco euros, do outro lado do mundo alguém está a ter acesso a toda a informação nossa por meio informático, a partir das nossas pesquisas sabe mais sobre as nossas preferências e gostos do que a nossa mãe, noutro canto do mundo há pessoas a fugir de suas casas, e algures em L.A. mais alguma empregada de mesa irá a um casting e ficará com o papel que fará dela uma estrela de cinema com milhões de seguidores daqui a cinco anos. O Ronaldo estará em casa com a sua Georgina a planear o seu sétimo filho. E nós?

Continuamos aqui a ver o mundo girar, e mais importante, à nossa maneira e ao nosso estilo continuamos a fazer parte dele.

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