Representação política precisa-se!

Anda um espectro a rondar cada ato eleitoral: o espectro da abstenção crescente. Esta sombra que vem ceifar os votos aos políticos e que se materializa na “culpa” imputada aos eleitores que não comparecem nas urnas eleitorais. Tal como nos incêndios anuais, todas as vezes que vamos a eleições os comentadores e políticos ficam surpreendidos com a percentagem elevada dos que decidem não votar.

Este comportamento é o sintoma de um transtorno: falta de identificação e quebra de confiança entre representado e representante, estimulado por um monolitismo partidário que não tem em conta estas sensibilidades. O problema de representação é a origem do alheamento que se consubstancia numa visão negativa acerca do campo político, bem como dos seus elementos, e que se manifesta na abstenção.

A representação política pode ser definida como a capacidade de tornar manifesto quem não está presente ou enquanto capacidade de agir, por delegação de poderes, em representação de alguém. Quando votamos delegamos a nossa capacidade política, legitimando os mandatos dos deputados, e esta delegação assenta na base da confiança e boa-fé.

O problema surge quando os interesses partidários colidem com os interesses dos representados – povo. Qualquer partido tem sempre como objetivo a conquista do poder político (qualquer partido que diga o contrário está a dissimular as verdadeiras intenções, procurando enganar o eleitorado) e apresentam-se enquanto estruturas que copiam o aparelho estatal. Já da parte do eleitorado os interesses são múltiplos, mas podem ser resumidos no aumento do bem-estar geral e relativa prosperidade. Quando as lutas partidárias se sobrepõem; quando se torna hábito a passagem de cargos políticos para cargos corporativos; quando investigações revelam o quão intrincados estão os interesses pessoais (entenda-se: dos políticos) sobre os interesses nacionais, então o cordão umbilical – confiança – que liga representantes e representados quebra-se.

Não se pode afirmar que as pessoas perderam o interesse pela política. Muito pelo contrário, é possível observar que o interesse existe, contudo, as opções que se apresentam não vão de encontro às verdadeiras necessidades. Por outras palavras, os possíveis representantes que se apresentam a votos não refletem quem querem representar. O eleitorado abstêm-se de participar, porque sente que o seu voto não alterará nada, afinal, tudo ficará na mesma com os mesmos. Os partidos, agregadores de opinião pública e correntes ideológicas, deixam de ser representantes quando disputam lugares nos ministérios e descuram os interesses de quem decidiu delegar a sua capacidade política.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico

Share this article
Shareable URL
Prev Post

Mare Of Easttown (2021) – Crítica

Next Post

LGBTI++++++++++++++

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

Gaguez democrática

Começo por dizer que este artigo não pretende tomar partido de partido algum. Não fala de esquerda nem de…

A Importância do Poder

Para perceber o funcionamento de qualquer sistema político, seja ele baseado numa ditadura, numa democracia, ou…