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Gaguez democrática

Começo por dizer que este artigo não pretende tomar partido de partido algum. Não fala de esquerda nem de direita, fala de inteligência e de democracia.

Se fazes parte das pessoas que destilou ódio contra a deputada Joacine Katar Moreira, convido-te, desde já, a interromper a leitura. A não ser que aceites refletir sobre tolerância, e se o quiseres fazer és bem-vindo.

Todos sabemos em que momento a polémica começou. Durante os festejos da eleição da deputada pelo partido Livre alguém da comitiva ergueu uma bandeira da Guiné-Bissau. O tema é antigo, mas foi apenas o início de um rastilho que fez explodir as redes sociais com mensagens de ódio contra a deputada democraticamente eleita.

Não vamos complicar. A Joacine nasceu na Guiné, estava acompanhada por amigos guineenses – nem vou trazer para aqui o tema do colonialismo – e existiam outras bandeiras nas quais ninguém parece ter reparado. Não é estranho que, no país que a elegeu como deputada, se aviste a bandeira do seu país natal, um país que, por acaso, nos é bastante próximo. No entanto, dou de barato que algumas pessoas se tenham sentido melindradas por não avistarem a bandeira portuguesa numa fotografia que se disseminou nas redes sociais, alvitrada por um qualquer falso democrata.

Contudo, o pior estava por vir: a Joacine é gaga (ou finge que é). Se a polémica em torno de uma bandeira foi ridícula, os comentários motivados pela gaguez da deputada conseguiram extravasar os limites do bom senso. A saber:

Somos todos a favor da inclusão, desde que não seja da inclusão de gagos na Assembleia da República. De repente, muitos parecem preocupados com as horas extra que os deputados terão de fazer e se receberão a devida retribuição. Não dá para nos irem mais ao bolso.

No entanto, vamos pôr as coisas noutra perspetiva. Se a Joacine, por ser gaga, não devia falar na Assembleia, quem não sabe escrever devia ser proibido de o fazer nas redes sociais. Os comentários acesos, que tive o infortúnio de ler, demonstram bem que o patriotismo não chegou à escrita. Ainda quero acreditar que essas considerações pertencem a uma minoria da população, só que essa minoria é demasiado barulhenta e escreve com muitos erros. E abrevia com “k” e “x”. Eu sei, não têm culpa, não tiveram oportunidade de estudar ou são disléxicos, mas, vejam bem, a Joacine também não tem culpa de ser gaga. E notem, escreve melhor do que a maioria dos patriotas indignados.

Não ficamos por aqui. Houve ainda quem insinuasse que Joacine não é gaga. A pobrezinha não sabia que em Portugal não se conquistam votos com gaguez, a única coisa que se consegue é ser vítima de bullying. Educamos os nossos filhos para denunciarem casos de bullying, mas chegamos a casa e desatamos a chamar fingida a uma mulher gaga.

Recordo-me de ter lido um comentário iluminado que referia que “um amigo gago diz que a gaguez parece falsa, que não se gagueja assim”. Eu tenho um amigo médico que diz que a gaguez parece verdadeira e se agrava em momentos de stress, em que ficamos? Ou alguém está a mentir ou é só ignorante.

Talvez a eleição de Joacine, uma mulher democrata, inteligente e natural de um país que muitos consideram inferior, tenha feito dói-dói no ego de falsos patriotas e democratas.

Confesso que senti vergonha alheia por cada comentário de ódio que li. Se tivesse que escolher, antes gaga do que intolerante.

Lara Barradas

Vivo com os pés na terra, a cabeça na lua. As palavras correm-me nas veias, pulsantes de emoções e ansiosas por se despenharem sobre uma folha branca. Tentam, desesperadamente, definir o indefinivel: eu.

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