Se este nome não lhe é familiar, é só uma questão de tempo até passar a ser. Kamala Khan é uma personagem da Marvel Comics. A esta altura já estará a pensar: “E qual é a novidade?!” A novidade e aquilo que a torna tão especial é o facto de se tratar da primeira personagem muçulmana da Marvel a ter o seu próprio comic, Miss Marvel. E desde o seu aparecimento, este comic já foi várias vezes premiado.
Os seus criadores são os editores Sana Amanat e Stephen Wacker, a guionista G. Willow e os artistas Adrian Alphona e Jamie McKelvie.
A Origem de Kamala Khan
Vamos à apresentação: Kamala Khan era uma tradicional adolescente americana nascida em Jersey City, com origens no Paquistão. Sendo fã de super-heróis, a sua heroína era a Capitã Marvel. E como se transforma ela própria numa personagem do Universo Marvel? Numa bela noite em que decide contrariar a vontade dos seus pais e ir ter com os amigos ao Rio Hudson, é atingida pela névoa Terrigen (responsável pela criação dos Inumanos). Ao acordar, percebe que tem superpoderes, quando se vê obrigada a salvar uma amiga que tinha caído ao rio, e decide, então, adoptar o nome Miss Marvel. Cria o seu “uniforme” a partir de um burquíni, que mais tarde muda consoante as suas transformações físicas.
Quais são os superpoderes de Miss Marvel? Consegue esticar e aumentar qualquer parte do seu corpo e possui metamorfose ilimitada, isto é, altera a aparência das suas roupas e cabelo tanto quanto lhe apetece (quantos de nós não gostaríamos de ter estes mesmos poderes?!).
Miss Marvel, a heroína paquisto-americana, protege as ruas de Jersey City com o seu único e especial “embiggening” power (esta palavra nova que já consta do dicionário americano significa este poder de transformação desta heroína), salvando a sociedade das forças do mal.
E como toda a boa série da Marvel, também há romantismo nesta história. A teia complexa da relação entre Kamala e Bruno, o seu melhor amigo desde a infância. Cada um deles tem um “interesse amoroso” no outro, mas, com a vida a acontecer, acabam por não parecer passar desse plano da amizade…
Por outro lado e ao contrário dos “tradicionais” super-heróis, a Marvel inova mostrando-nos uma super-heroína cuja vida e super-poderes são conhecidos pela sua família e amigos.
Kamala, enquanto rapariga paquisto-americana muçulmana, filha de pais rigorosos, mas amorosos, tem uma vida “normal” à semelhança da maioria das miúdas da sua idade, tira selfies com os seus ídolos e, no fundo, só quer encontrar um equilíbrio entre o orgulho da família e a vida de uma adolescente com super-poderes (peanuts, certo?). Quanto à personalidade de Miss Marvel, muito mais do que acabar com os estereótipos das raparigas muçulmanas, acaba com os estereótipos dos super-heróis que negam a si próprios amar e ser amados em virtude dos seus poderes. O verdadeiro altruísmo de Kamala reside no facto de ser muito humana, selectivamente violenta e uma verdadeira feminista. Kamala narra a sua própria vida.
A sua história não foi apenas um veículo para mostrar a história de uma muçulmana-americana, mas foi também uma história sobre sentir-se diferente e tentar encontrar-se a si própria no meio de toda a pressão que sofre, quer seja familiar ou social – é uma história com a qual qualquer pessoa que tenha passado pela adolescência pode simpatizar. Sem vergonhas, sem cor-de-rosa desnecessário, apenas sendo orgulhosamente ela própria e conseguindo com isso fazer muitas “Kamalas” reverem-se nesta personagem, abrindo todo um mundo de possibilidades para si próprias.
Kamala Khan no MCU e mais além
Nos comics, Miss Marvel, Kamala Khan tem um conjunto específico de poderes, tais como: Molda o seu corpo conforme lhe apetece, fica achatadinha como uma folha de papel para passar em qualquer sítio apertado ou pode ainda tornar o seu punho do tamanho de um carro pequeno. Estes poderes servem como uma metáfora eficaz da puberdade e do desafio que representa equilibrar a vida em casa, na escola e como super-heroína. As suas capacidades de mudança de forma e a forma como as usa para se transformar são um meio através do qual Kamala se pode esconder da sua identidade, tornando-se a super-heroína branca e loura bonitinha que a sociedade americana a fez acreditar que tem de ser. No entanto, com o passar do tempo, Kamala percebe que não precisa de fingir ser outra pessoa. À medida que se familiariza com os seus poderes bastante estranhos, também se tornava mais segura e confiante em si própria.
Na série do Disney+, os poderes de Kamala Khan acabaram por ser alterados em relação aos comics. Vamos tentar perceber porquê…
Na série, Miss Marvel obtém os seus poderes de forma um pouco diferente. Durante o primeiro episódio, Kamala encontra uma pulseira que pertenceu à sua avó. Depois de a adicionar ao seu cosplay de Capitão Marvel na AvengersCon, os olhos de Kamala Khan brilham e protagoniza um grande espectáculo no palco. Até agora, na série Ms. Marvel, os poderes de Kamala incluem disparar formações quase cristalinas e aumentar partes do seu corpo, quando é necessário.
No segundo episódio da série, “Crushed“, ficamos a conhecer mais um pouco sobre a razão pela qual a história da família de Kamala é algo que Muneeba quer esconder. Yusuf conta a história da mãe de Muneeba, que seguiu um “rasto de estrelas” até ao seu pai, depois de se ter perdido no comboio para o Paquistão, na Partição. Para além de mudar a origem dos poderes de Kamala, que deixou de ser uma Inumana, a série estabeleceu uma ligação entre os seus poderes e os acontecimentos da Partição, e como estes desencadearam uma mudança na avó de Muneeba, Aisha.
Portanto, os poderes de Kamala ainda estão ligados à sua identidade, mas através da sua herança cultural. E foi fortemente influenciado pelo que a sua família passou durante a Partição, quando Kamala voltou atrás no tempo e ajudou a guiar Sana até ao seu pai. E com isto conseguimos perceber melhor os seus poderes. Ela pode usar a sua luz para criar pedras duras para correr/saltar, bem como estruturas semelhantes a pontes.
Especulou-se que a mudança nos poderes da Miss Marvel se devia à sua semelhança com o Sr. Fantástico, também conhecido como Reed Richards, e às suas capacidades de mudança de corpo. Contudo, Sana Amanat, co-criadora da personagem nos comics e produtora da série de Ms. Marvel, desmente esta ideia numa entrevista. “Sinceramente, não sei”, disse Amanat. “Acho que não. Quer dizer, tanto quanto sei, estava relacionado com o tipo de história que queríamos contar sobre Kamala e não apenas com a ligação a outros eventos do MCU, mas também com o sentido de história que ela tem e a relação com a sua família, ligando os poderes ao passado da sua família. Acho que esta era realmente a ideia principal.”
Os fãs estavam apreensivos sobre como o MCU lidaria com os poderes de Kamala e a exploração de sua identidade, mas a série focou-se na ligação forte de Kamala com as mulheres da sua família à medida que ela descobria mais sobre sua linhagem materna, tornando-se numa heroína por direito próprio.
Uma das escolhas mais heroicas de Kamala nos comics, que já referi atrás, foi ser ela própria em vez da Capitão Marvel que tanto admirava. E na série, a grande escolha da Miss Marvel envolve abraçar a sua herança para compreender a origem dos seus poderes no MCU e a si própria. Aprende sobre a sua família e apoia-se numa comunidade que apoia uma notável rapariga com um tom de pele mais “escuro” e com poderes. Uma história muito poderosa, se olharmos com olhos de ver.
Se a herança familiar de Kamala partilhar uma linhagem Kree, a pulseira só aprofundaria os laços de Kamala com a Capitão Marvel. À medida que a história de Ms. Marvel se desenvolve no MCU, teremos de estar atentos à forma como os poderes de Kamala se ligam ao seu ídolo, bem como à forma como a série da Disney+ ajudará a preparar os acontecimentos de The Marvels.
A Importância de Kamala Khan na representatividade
Principalmente para os leitores de comics muçulmanos da parte Sul da Ásia, o comic da Miss Marvel não se resume só a isto, também os representa. A sua posição como a mais importante personagem muçulmana tornou-a quase num emblema contra a islamofobia, especialmente para os norte-americanos.
Num mundo cada vez mais global, onde em todo o lado nos cruzamos com diferentes culturas, diferentes hábitos, onde muitas das fronteiras físicas entre países foram abolidas, parece estranho que só em pleno século XXI se comece a representar TODOS aqueles que fazem parte do mesmo mundo. A representar imensas minorias. E ainda assim, o caminho a percorrer é longo, mas é preciso começar por algum lado e ainda bem que a Marvel o fez e que bem que o fez.
E agora lamento o spoiler: Kamala morreu há pouco tempo. Assim decidiu a Marvel e esta decisão tem sido alvo de inúmeras críticas. Vejamos porquê:
- Primeiro, Kamala é uma das personagens mais recentes e mais jovens do universo Marvel. Uma super-heroína adolescente (apareceu pela primeira vez em Agosto de 2013, o que faz com que a personagem tenha praticamente dez anos).
- Segundo, ela nem sequer morre na sua própria série, mas, sim, como parte de uma história do Homem-Aranha (sério?). Esta escolha é um caso óbvio de fridging, isto é, matar uma personagem feminina para promover o crescimento emocional de um personagem masculino (ãh?).
- Não sendo já suficientemente grave, tudo toma outra proporção, quando se considera que Kamala é a primeira super-heroína muçulmana e sul-asiática da Marvel a protagonizar a sua própria série.
- Por fim, Kamala morre só e ninguém merece morrer só. Muito menos uma super-heroína e menos ainda ESTA super-heroína. Qual é o objectivo, exactamente, de matar Kamala numa história de Peter Parker? Parece um acontecimento meio aleatório e triste.
Outro facto que consegue tornar toda esta situação ainda mais estranha é que no Universo Cinematográfico Marvel, Kamala vai aparecer em The Marvels no próximo mês de Novembro. Não faz sentido nenhum. Então, morre em Julho nos comics e ressuscita em Novembro no cinema? Alguns fãs especulam que qualquer que seja a “nova” Kamala que apareça nos comics estará mais em linha com a versão cinematográfica: uma mutante em vez de uma inumana, com o poder de manipular a energia cósmica em vez das habilidades mais tradicionais de Kamala.
O meu conselho? Não percamos tempo a preocupar-nos com isto. Kamala veio para ficar!