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Representação política precisa-se!

Anda um espectro a rondar cada ato eleitoral: o espectro da abstenção crescente. Esta sombra que vem ceifar os votos aos políticos e que se materializa na “culpa” imputada aos eleitores que não comparecem nas urnas eleitorais. Tal como nos incêndios anuais, todas as vezes que vamos a eleições os comentadores e políticos ficam surpreendidos com a percentagem elevada dos que decidem não votar.

Este comportamento é o sintoma de um transtorno: falta de identificação e quebra de confiança entre representado e representante, estimulado por um monolitismo partidário que não tem em conta estas sensibilidades. O problema de representação é a origem do alheamento que se consubstancia numa visão negativa acerca do campo político, bem como dos seus elementos, e que se manifesta na abstenção.

A representação política pode ser definida como a capacidade de tornar manifesto quem não está presente ou enquanto capacidade de agir, por delegação de poderes, em representação de alguém. Quando votamos delegamos a nossa capacidade política, legitimando os mandatos dos deputados, e esta delegação assenta na base da confiança e boa-fé.

O problema surge quando os interesses partidários colidem com os interesses dos representados – povo. Qualquer partido tem sempre como objetivo a conquista do poder político (qualquer partido que diga o contrário está a dissimular as verdadeiras intenções, procurando enganar o eleitorado) e apresentam-se enquanto estruturas que copiam o aparelho estatal. Já da parte do eleitorado os interesses são múltiplos, mas podem ser resumidos no aumento do bem-estar geral e relativa prosperidade. Quando as lutas partidárias se sobrepõem; quando se torna hábito a passagem de cargos políticos para cargos corporativos; quando investigações revelam o quão intrincados estão os interesses pessoais (entenda-se: dos políticos) sobre os interesses nacionais, então o cordão umbilical – confiança – que liga representantes e representados quebra-se.

Não se pode afirmar que as pessoas perderam o interesse pela política. Muito pelo contrário, é possível observar que o interesse existe, contudo, as opções que se apresentam não vão de encontro às verdadeiras necessidades. Por outras palavras, os possíveis representantes que se apresentam a votos não refletem quem querem representar. O eleitorado abstêm-se de participar, porque sente que o seu voto não alterará nada, afinal, tudo ficará na mesma com os mesmos. Os partidos, agregadores de opinião pública e correntes ideológicas, deixam de ser representantes quando disputam lugares nos ministérios e descuram os interesses de quem decidiu delegar a sua capacidade política.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico

Davide Morais Pires

Cresceu no campo a pensar na cidade e agora que está na cidade só pensa no campo. Apreciador de café, mas isso não quer dizer que sonegue um bom chá, preferencialmente preto, para iniciar uma conversa interessante. É aluno de mestrado em Relações Interculturais e autor do livro Ecce Homo, editado por Poesia Fã Clube.

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