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ContosCultura

Um pouco mais alto, um pouco mais perto

O Tio Amaro era o habitante mais velho da aldeia, embora tal não parecesse. No rosto refletiam-se finos rios que contrastavam com os profundos vales dos seus pares, pessoas de feições carregadas por anos de labor nas terras. Ele apresentava-se rejuvenescido e dizia que a sua amada esposa, há muito ida depois de trágico acidente, o mantinha jovem. Alguns sorriam de soslaio mas ele tinha mesmo mais saúde que todos e por isso todos o respeitavam, nem que fosse por admiração.

Admiração porque o Tio Amaro tinha um velho hábito que cumpria religiosamente, dia após dia. Todos os finais de tarde, quando o sol se atirava para os confins do dia, ele subia a serra carregando uma pedra. Sempre carregando uma pedra. Fosse de que dimensão fosse mas nunca apenas um pedaço no bolso, sempre uma pedra que tivesse que carregar nas mãos e que lhe fizesse peso para a sentir durante todo o caminho.

Caminho iniciado sempre no sopé da serra. Escolhia uma pedra ao acaso como se fosse um pequenino pedaço da serra que tivesse resvalado do topo. Passava em frente do café da aldeia onde os seus pares já descansavam dos trabalhos na terra. Bebiam copos de vinho, conversavam e viam aquele senhor idoso a iniciar a sua marcha sem perceberem que era aquela rotina que os envelhecia mais do que a ele.

Ele que percorria os caminhos da serra até ao topo com relativa facilidade. Dias havia que o cansaço o levava pela velha estrada, outros dias escolhia trilhos mais ingremes que apenas conheciam os seus pés. No topo encontrava sempre o mesmo cenário.

Cenário esse onde descansava a sua amada esposa. Era o templo de Nossa Senhora da Serra, velha capela do granito que formava a serra. No seu adro uma fonte de águas secas e por trás o velho cemitério em desuso depois do novo mesmo à saída aldeia. O Tio Amaro foi dos poucos a negar interessa na transladação da sua amada. Outros fizeram-no com os seus entes, ele não. E por isso ele era o único que ainda ali ia. E todos sabiam porquê, apenas não sabiam porque carregava ele uma pedra dia após dia.

Uma vez por ano perdiam a oportunidade de o saber. Nas festas de Nossa Senhora todos subiam ao topo da serra e oravam na velha capela. Mas ninguém ia um pouco ali ao lado. Numa formação rochosa que marcava o ponto mais alto da serra, uma torre de pedras elevava-se dando mais alguns centímetros à serra.

Eram as pedras que o Tio Amaro trazia do sopé da montanha para no topo se sentir ainda mais perto da sua amada esposa que o aguardava no alto por cima do azul do céu. Ele apenas não sabia que não era ela que o mantinha jovem, como dizia na aldeia. Era o seu amor por ela.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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