Da próxima vez que estiverem com um grupo de amigos, perguntem, a despropósito, “do que sentem mais falta no vosso dia?”. É certo que irão começar por se deparar com caras de estranheza, mas passada a surpresa, ouvirão como resposta ser o tempo, do que os vossos amigos mais sentem falta. Confiem.
O tempo parece ser o bem mais escasso de todos. Mais escasso do que o dinheiro, apesar da crise. Mais escasso do que a água, apesar das alterações climáticas.
Mais tempo é o que todos queremos, quando, na verdade, talvez não seja isso que (todos) precisamos.
Já fui essa pessoa que corre atrás do tempo, que quer fazer muitas coisas, e acaba a perceber não ser possível chegar a todo o lado. Já fui a pessoa que não diz que não. Aceitava ir onde não queria ir, participar no que não queria participar. Tornava-se impossível encontrar um momento para me dedicar ao que gostaria mesmo de fazer. Até que percebi que dizer não ao que não queremos fazer, não é egoísmo, é respeito por nós próprios. Quem não perceber isso, não merece a nossa consideração e, menos ainda, o nosso tempo.
O tempo é limitado. Limitado nas horas, nos dias, nos anos. O tempo condiciona as nossas escolhas, mas não escolhe por nós.
Vou dar-vos um exemplo do quotidiano. O pequeno-almoço. Mesmo na altura em que corria atrás do tempo, sempre tomei o pequeno-almoço em casa antes de sair para ir trabalhar. Porquê? Porque acordo com fome e faço questão de que o despertador toque a uma hora que me permita comer (com calma) antes de sair.
O tempo condiciona-me, mas não escolhe por mim. Eu escolho acordar mais cedo e, assim, ter tempo de manhã para fazer o que quero. É por isso que eu nunca percebi as pessoas que dizem sair de casa sem tomar o pequeno-almoço, porque não tiveram tempo. Eu diria que é uma escolha e não uma limitação.
E o meu ponto, é este mesmo. Será que não temos tempo, ou será que não sabemos gerir o tempo que temos? Teremos noção das nossas prioridades?
Julgamentos à parte, de certeza que não temos tempo para fazer exercício físico, ou será que não queremos fazer exercício físico? Estão a ver aquela hora e meia que durou o filme que viram ontem, esparramados no sofá? Eu diria que dava para ir, no mínimo, fazer uma caminhada. Estão a ver aquelas duas horas em que andaram a fazer scroll no feed das redes sociais da vossa eleição? Eu diria que dava para ler umas boas cem páginas do livro que têm a apanhar pó na mesa de cabeceira. Lembram-se da tarde que gastaram a ver montras no shopping? Eu diria que teria dado para ir passear até à praia, ou a uma exposição, ou a um jardim.
Não me interpretem mal. Apesar de já ter aprendido a lidar com o tempo enquanto escolha e não como limitação, continuo a fazer muitas escolhas erradas (e a viver com as respectivas consequências).
Mas, percebem o meu ponto? O tempo não dá para tudo, claro que não. Mas, se não queremos ser como o Coelho Branco da história da Alice, precisamos assumir que talvez não seja o tempo o que nos falta.