PersonalidadesSociedade

Daniel Day-Lewis: Uma vida de sonho

Há tempos, quando escrevi sobre Meryl Streep, enfatizei a sorte que é coincidirmos no tempo em que actua a melhor actriz de sempre. Não posso dizer isso sobre nenhum outro artista mas a respeito de Daniel Day-Lewis posso afirmar que é um dos melhores actores da sua geração e um dos melhores de sempre.

Não vi muitos filmes com ele o que, à primeira vista, parecerá estranho uma vez que me proponho escrever sobre a sua vida e obra mas a verdade é que Daniel Day-Lewis, simplesmente, não tem muitos filmes no currículo e essa é uma marca diferenciadora na sua carreira: privilegia a qualidade em detrimento da quantidade. Em trinta e oito anos de carreira (não sei se podemos assumir que a sua carreira terminou com Linha Fantasma (2017), segundo o próprio) participou apenas em vinte filmes e este feito é tanto mais notável quanto, a partir de 1988, dez das quinze películas onde marcou presença resultaram em obras cuja qualidade, originalidade ou interesse se enquadravam substancialmente acima da média do que habitualmente se faz em Hollywood.

‘O Meu Pé Esquerdo’ foi nomeado para 5 óscares em 1989 tendo ganho, além do de Melhor Actor, o de Melhor Actriz Secundária para Brenda Fricker.

Nascido em Inglaterra em 1957, foi pelas mãos de um irlandês – Jim Sheridan – que a qualidade de Daniel Day-Lewis explodiu no grande ecrã. Antes, já havia feito alguns filmes que tinham ficado para a História mas foi em 1989, na irrepreensível personificação de Christy Brown em O Meu Pé Esquerdo que Day-Lewis nos ofereceu uma das interpretações mais previsíveis no que ao vencedor do óscar desse ano dizia respeito. Foi a minha professora de Matemática do 12º ano quem me falou deste filme, julgo que depois de eu ter referido a interpretação de Dustin Hoffman em Rain Man – Encontro de Irmãos. Íamos no autocarro, numa visita de estudo a conversar sobre cinema (descobri nessa viagem que partilhávamos esse gosto) e fiquei curioso com a interpretação e com o filme… Nesse ano, a concorrência feroz de grandes interpretações masculinas não foi capaz de colocar em causa a vitória na corrida pela estatueta dourada (Tom Cruise em Nascido a 4 de Julho, Robin Williams em Clube dos Poetas Mortos e Morgan Freeman em Miss Daisy). A capacidade de luta e adaptação do pobre Christy Brown, nascido com uma paralisia cerebral, permite-lhe encarar as limitações da vida e, aprendendo a pintar e escrever com o pé esquerdo – a única parte do corpo da qual conseguia ter algum controlo – consegue manifestar o seu génio, sensibilidade e inteligência. Um papel irrepreensível (se bem que vistoso, o que facilita o reconhecimento) e que colocou Daniel Day-Lewis no panteão dos melhores.

‘Em Nome do Pai’ com o Benfica ao fundo!

Quatro anos mais tarde voltaria a trabalhar com Jim Sheridan numa outra história verídica quando, no papel de Gerry Conlon, luta por provar a inocência do pai, que juntamente com ele foi preso injustamente tendo falecido na prisão. O IRA e os anos conturbados da década de setenta estendem o palco a este grande filme que valeu a Day-Lewis a segunda nomeação. Em Nome do Pai é um filme duro, revoltante e que nos coloca em confronto com a brutal impotência perante a “injustiça autoritária”.

Pelo meio, O Último dos Moicanos e A Idade da Inocência (este último não vi… ainda) deram corpo a uma carreira construída meticulosamente, mas com uma particularidade muito interessante: Daniel Day-Lewis nunca tendo sido um actor rendido a Hollywood, nunca fez outro cinema que não o anglo-saxónico. Sempre preservou a sua privacidade, abraçando a liberdade de experimentar as diversas possibilidades que a vida lhe oferece. Exemplo disso é o facto de, na década de noventa, ter feito uma pausa na carreira para, durante cinco anos, ter trabalhado como sapateiro numa fábrica em Itália! A escassez de obras com a sua presença está relacionada com a rigorosa preparação que coloca em cada papel e esse trabalho, aliado a um gigantesco talento, resulta na qualidade dos papéis com que nos tem brindado. Por exemplo, aprendeu a construir canoas para a participação em O Último Moicano, obrigava a produção a alimentá-lo por uma palhinha e andava apenas em cadeira de rodas no set de O Meu Pé Esquerdo (tendo inclusivamente partido costelas pelo tempo excessivo em que se manteve na posição contranatura) e aprendeu a falar checo para interpretar o papel de Tomás em A Insustentável Leveza do Ser.

Este último, baseado no fantástico romance de Milan Kundera, foi filmado em 1988, antes ainda do reconhecimento de Hollywood, mas quando a sua carreira já se encontrava em ascenção. E se, com a leitura do romance nos questionamos como é possível transportar tal ambiente para o grande ecrã, o filme, não conseguindo uma transposição que, para mim, é simplesmente impossível tal a riqueza do livro, responde-nos com um enorme trabalho de actores (Day-Lewis, Juliette Binoche e Lena Olin são ouro) uma fantástica adaptação de Jean-Claude Carrière e um trabalho de câmara sublime de Philip Kaufman (a par da fotografia).

Três anos antes havia participado numa premiada produção da gloriosa parceria Merchant e Ivory (que nos ofereceram as obras-primas Regresso a Howards End e Os Despojos do Dia) em Quarto com Vista Sobre a Cidade. Provavelmente, terá sido em 1985 que a sua carreira explodiu: além de A Room With a View, participou nesse ano em A Minha Bela Lavandaria de Stephen Phrears (filme que não vi) tendo vencido pelo conjunto destes dois papéis o New York Film Critics Circle Award e o National Society of Film Critics Award, os seus primeiros prémios em interpretação.

O confronto com os homens da Terra e de Deus em nome do petróleo em ‘Haverá Sangue’

Daniel Day-Lewis é o único intérprete masculino a ter vencido três Óscares como actor principal (e se considerarmos homens e mulheres, apenas Katharine Hepburn superou tal feito). Mais uma marca na carreira impressionante deste actor sem paralelo no cinema actual. O segundo Óscar veio com Haverá Sangue, um filme que conta o lado negro do início da exploração de petróleo nos Estados Unidos e no qual Daniel Day-Lewis tem mais um desempenho memorável numa grande realização de Paul Thomas Anderson. O último óscar veio com um filme cuja interpretação só pode ser qualificada como épica, e não há muitas performances das quais eu consiga ter semelhante opinião (a personificação de Robert de Niro como o jovem Vito Corleone em O Padrinho – Parte II é (a) outra): Lincoln não é um grande filme, ou não navegasse ele na corrente descendente da carreira de Steven Spielberg, mas a presença do actor que deu corpo e alma ao presidente americano é qualquer coisa de brutal.

‘Lincoln’: uma oportunidade que temos para assistir a um desempenho épico.

Seguidor do Sistema Stanislavski, desenvolvido pelo encenador, realizador e actor russo Constantin Stanislavski, o sistema possui pontos em comum com O Método desenvolvido no Actor’s Studio em Nova York nos anos trinta e quarenta mas, ao contrário deste que fomentava a utilização de emoções reais transpostas para o personagem, no sistema “um actor é levado a proceder a uma profunda análise sobre si mesmo, bem como ao conhecimento do seu personagem. O actor é levado a descobrir os objetivos do personagem em cada cena, dentro do objetivo-geral da peça inteira.[i]

Além das obras mencionadas, há a realçar na carreira de Daniel Day-Lewis as duas actuações que lhe valeram as nomeações que restam entre as seis que colecciona (três delas vitoriosas): Gangs de Nova York em 2002 e Linha Fantasma em 2017. Sem ter visto nenhum dos dois, posso afirmar que, dos sete filmes que vi com a sua participação, não há um em que possa dizer ter visto um mau trabalho. O rigor, excelência e grandiosidade dos papéis que o vi desempenhar fazem prova suficiente de como este génio da interpretação merece um lugar no círculo dos melhores.

Escolhe um trabalho de que gostes e não terás que trabalhar um dia da tua vida”, dizia Confúcio. Pois Daniel Day-Lewis não só conseguiu trabalhar naquilo de que gostava como, interrompendo esse gosto, pôde enveredar por experiências alternativas num exercício supremo de liberdade, quiçá de inspiração, de enriquecimento pessoal ou apenas de puro prazer. Contudo, alguém que ousa interromper uma carreira de sucesso para trabalhar durante cinco anos como sapateiro, além de coragem, demonstra uma capacidade para abraçar a vida nas suas diferentes dimensões como poucos, espremendo a máxima de Confúcio até não restar uma gota de dia em que tivesse que trabalhar.

[i] Fonte: Wikipédia

Tags

António V. Dias

Tendo feito a formação em Matemática - primeiro - e em Finanças - depois - mais por receio de enveredar por uma carreira incerta do que por atender a uma vontade ou vocação, foi no Cinema, na Literatura e na Escrita que fui construindo a casa onde me sinto bem. A família, os amigos, o desporto, o ar livre, o mar, a serra... fazem também parte deste lar. Ter diversos motivos de interesse explica em parte por que dificilmente me especializarei alguma vez em algo... mas teremos todos que ser especialistas?

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Back to top button
Close

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: