Sobre arte e outras coisas

A 15 de Maio de 2018 a Revista Time Out de Nova Iorque publicou um artigo de Howard Halle intitulado “As melhores pinturas de todos os tempos, por ordem”. Logo na primeira frase do corpo do artigo esclareceu que estava a ter em conta a “Arte Ocidental” (e, portanto, a ignorar as outras artes todas) e que o critério principal para o tal ranking era o de “terem-se tornado ícones intemporais”, ou, posto de outra forma, “já as viste n’algum lado”. Convenhamos, alguém deu ao Sr. Halle uma tarefa impossível e o homem teve mesmo de encontrar um critério de base para começar a laborar o artigo. Lá que o critério é arbitrário e muito pouco convincente é, mas não é menos válido por isso. Na verdade, é “o” critério, pois realmente o que o leitor da Time Out quer ler é que entre “as melhores pinturas de todos os tempos” estejam umas quantas que ele já conhece e, portanto, que isso valide a sua cultura geral, ou até que lhe dê a impressão de ter bom gosto e uma esmerada educação. A premissa inicial da tal lista “por ordem” corresponde ao mesmo que eu ouvi da boca da maioria dos alunos de uma turma de 10º ano: “as melhores de sempre” é o mesmo que “as mais famosas”. Fama igual a qualidade, onde é que já ouvimos isto?…

A falácia é muito fácil de instalar na era do Google. Sim, ao pesquisarmos no Google, sai-nos uma lista (ou uma lista em forma de imagens) e o procedimento em si sedimenta a convicção de fama e qualidade serem a mesma coisa. Perguntar “mas como é que ficou famosa” e “que papel representa a qualidade na construção da fama” ajuda a destrinçar uma coisa da outra, na arte e já agora em tudo o resto. Sim, aquilo não era só história da arte, mas era através da história da arte que eu estava a tentar moldar aquelas cabecinhas e torna-los adultos decentes. Para minha grande alegria, eles mostravam-se muito mais interessados nestas aulas do que nas tradicionais – as que eu tinha recebido – e as notas não só subiam como eles realmente lembravam-se das obras de arte que tínhamos discutido semanas ou meses depois de termos falado delas.

Por outro lado, o artigo do Sr. Halle é o que se chama “encher chouriços”. E totalmente “esquecível” também. Deve ter caído bem aos leitores, mas as obras de arte propostas (para além de serem apenas pinturas ocidentais) eram muito previsíveis e a sua apresentação não as problematizava minimamente. Aquele artigo, bonitinho e arrumado, era o contrário de pensar. Até de aproximava muito de uma pesquisa no Google… Que o “público geral” confunda uma coisa com outra percebe-se, que alguém que tem de escrever um artigo não se dê ao trabalho de meter, pelo menos no corpo do texto que é onde têm mais liberdade, uma ou outra apreciação crítica… bem, isso desiludiu-me. De que serve falar de qualquer obra de arte, se não for para dela retirar os factos e os episódios que nos servem para pensar sobre a nossa vida?

No tal artigo da Time Out, estava referida uma pintura que foi brilhantemente tratada num episódio do Mr. Bean. Sim, o humorista. Sim, estamos a falar de história de arte no Mr. Bean. Digo isto, porque penso que o que o Mr. Bean fez com aquela pintura foi um ensaio genial sobre os valores dessa pintura – o que ela é, o que ela representa e o que faz dela uma obra de arte – e usou uma ferramenta brilhante para fazer passar ideias intelectualmente muito estimulantes: o humor. A pintura é conhecida como “A mãe do Sr. Whistler”, porque foi James Whistler que a pintou e usou a própria mãe como modelo, mas o autor deu outro nome à sua própria obra, chamou-lhe “Arranjo em cinzento e negro nº1”. O título do próprio autor, bem como a escola de pintura que ele estava ali a exemplificar, renegava para segundo plano o tema em si e muito menos o sentimentalismo de ser a sua mãe. Contudo, o público geral não queria nada saber das questões da “mancha cromática” ou da “diluição de fundo e figura” e via ali, com sobriedade e dignidade, uma homenagem à própria maternidade. É que as obras de arte estão inacabadas no momento em que os artistas as entregam à vista dos outros – como bem notou o nosso querido amigo Eco – e não pode realmente prever-se como é que os outros as vão acabar. Em suma, o Whistler fez uma pintura, notável é certo, mas uma pintura. A pintura tornou-se uma obra de arte depois.

E aí entra o Mr. Bean. Se o público deu uma reciclagem no nome pelo qual a pintura é conhecida, deu também um novo significado ao que ela representa. E o público tende a ficar apegado ao que “cria”, neste caso aos valores quase sagrados da maternidade que ali reconhecia. Por isso a intervenção desastrada e hilariante do Mr. Bean é na figura, não um pequeno desastre na moldura ou no enquadramento. Ele faz uma verdadeira “cirurgia plástica” na “mãe”. A aflição do Mr. Bean em todo o processo, e ao mesmo tempo as sucessivas tentativas vãs de remediar a situação, são uma hipérbole aos esforços inúteis dos pintores (ou de qualquer autor) que se focam demasiado por agradar ao público, trocando assim “criar” por “dar o que eles querem” ou “apresentar o que eles podem reconhecer”.

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