
Depois daquela experiência com o Google e a Mona Lisa houve outras, essencialmente para estabelecer que o que quer que se pudesse procurar online, quer em imagens quer em definições estilo Wikipédia, só mostrava reproduções, só martelava palavras ocas. A obra de arte – neste caso a pintura da Mona Lisa – estava numa parede de um Museu e essa tinha uma qualidade que nenhuma das outras às quais nós estávamos a aceder tinha: era a “verdadeira”. Se havia dúvida no tom do pigmento, no efeito que o sorriso provocava a quem o via, no suposto poder de o olhar da senhora acompanhar o movimento de quem a contempla, essas e outras questões só podiam ser verificadas (literalmente: aferir-se a verdade) aquando da presença da obra em si. E entre a “obra em si” e as reproduções havia uma grande diferença.
Porém, não era só isso, pois a Mona Lisa era famosa, toda a gente sabia, mas não era a única obra de arte. Obras de arte eventualmente menos famosas, ou até desconhecidas de todo, tinham exactamente o mesmo poder único, o de serem “a própria” e uma coisa diferente de todas as reproduções possíveis. Começámos a falar sobre isso, eles totalmente a leste do facto de eu lhes estar a atirar para cima a discussão da obra de arte na era da reprodutibilidade técnica, que é um tema de segundo ano de história da arte. A minha estratégia era fazer de conta que o que estávamos a discutir não era difícil, e eles correspondiam bem quando não percebiam que aquilo até aos finalistas da licenciatura dava dores de cabeça. No final dessa aula, não chegámos a conclusão nenhuma, mas toda a gente ficou mais perto de perceber para quê que a arte servia: tínhamos estado ali a discutir acaloradamente verdade, imagem, reprodução, valor, autenticidade, e outros conceitos fundamentais, sempre com uma pintura projectada na parede. Não era “a” Mona Lisa, mas já nos tinha permitido fazer uma grande viagem intelectual. Uma parte do sentido da arte é esse. A outra é o sentimento, mas isso ali naquela sala ainda não era possível, nem tão pouco eles estavam preparados.
Um dos jogos que fiz com o pessoal – um dos primeiros que consegui fazer sem qualquer recurso aos aparelhos electrónicos – era uma espécie de “jogo da memória”. Aquele de virar as cartas e depois lembrar-se onde é que estava aquele símbolo para fazer os pares, sabem? Eu tinha imprimido pares com as esculturas mais famosas da Antiguidade. O tema era a escultura do Egipto, Grécia e Roma. Ao contrário das pinturas, onde há fundos, muitas cores, cenas diversas, a escultura humana das civilizações clássicas é relativamente monocromática (na versão que nos chegou pelo menos) e podem obter-se boas imagens das mesmas com fundos neutros. Assim, o conjunto final destas “cartas de jogar” ficou com um aspecto muito uniforme e até com uma quantidade suficiente para tornar o jogo desafiante.
O objectivo do jogo podia até diversificar-se, pois poderíamos estar a fazer “pares” entre repetições da mesma escultura ou “pares” entre temas como “acção de desporto” ou “figura feminina”. No fundo, foi com este jogo que os alunos não só exercitaram a memória e se tornaram mais fluentes quanto à designação destas obras, mas também perceberam que havia um diálogo subtil entre elas. Havia muitos “homens em pose desportiva”, muitas “mulheres nuas em actividade suspensa”, havia várias “figuras rígidas em pose pouco natural” mas também imensas “acções vigorosas e em movimento”. No fundo, aquilo era para eles perceberem para quê que os autores daquelas esculturas se tinham dado ao trabalho de gastar horas, recursos e esforço a transformar materiais inanimados e rígidos em configurações tridimensionais que os humanos reconhecessem.
E então, quando estavam quase a chegar à conclusão que “as esculturas representam os seres humanos” eu troquei-lhes as voltas. “A sério, há humanos assim?” Olhávamos para os inconfundíveis corpos tonificados dos gregos, que aliás são a cópia romana dos gregos, quando uma das raparigas disse: “Isto parece um actor de Hollywood. Ninguém é assim a menos que passe a vida toda no ginásio, ou que faça cirurgia plástica!” Riram-se todos, eu também, e depois disse-lhe que tinha toda a razão. Aquilo não era o grego que corria atrás das cabras ou apanhava azeitona, não era o grego que morria aos 20 anos porque na Antiguidade não eram tudo rosas e as pessoas podiam morrer de uma infecção nos dentes, aquilo não era “natural” como o manual impresso da Editora X dizia. A escultura dos gregos não tinha nada a ver com representar realisticamente os corpos dos humanos… E aí, com um tom descontraído, um rapaz disse algo que me encheu de orgulho (mas contive-me): “Quem é que se ia dar ao trabalho de derreter o metal e fazer aquela cena toda para representar pessoas cheias de defeitos? Se é para fazer, faz bonito!” Na mouche! Estava aberta a porta. Qual quê, estavam escancarados os portões! Devagar, para lhes semear realmente fundo a inquietação que nunca morreria, insinuei: “E… o que é «bonito»?”