
E voltamos à Mona Lisa, pois realmente ainda não vos contei por que é que uma parte importante da fama dessa pintura reside numa verdade que nos bate na cara por não a querermos ver de outro modo (vide primeira parte desta série de textos). Esta conversa toda sobre a autenticidade da obra de arte, a importância de privarmos com os originais nos espaços em que se encontram, e de ter uma abordagem crítica em relação às novas formas de acesso digital à arte (porque isso inevitavelmente introduz uma nova definição de Arte já que é essencialmente uma nova forma de experiência estética) … Enfim, essa conversa toda, não chega nem aos calcanhares do que aconteceu com a Mona Lisa.
Porque é que a Mona Lisa é uma das pinturas mais famosas, se não mesmo a mais famosa, do mundo?
Pensam que é porque o seu autor é um artista fenomenal? Porque a qualidade da pintura é única? Porque os críticos de arte e os historiadores de arte quase todos concordam que é realmente uma pintura soberba e acima de todas as outras?
Não exactamente…
A Mona Lisa ficou famosa por causa de um episódio muito específico. Episódio esse que se pode resumir a isto: uma escandaleira dos diabos!
Sim, o artista é fenomenal, sim a qualidade é indiscutível, sim é única (é a original), e sim hoje em dia os críticos e historiadores de arte concordam que é uma peça muito significativa para a história da humanidade. Mas nada disso, de modo decisivo, foi a causa directa da sua fama. A Mona Lisa é, em suma, o melhor caso para demonstrar que qualidade e fama não só não são a mesma coisa como também não podemos dizer que não possam coexistir na mesma obra. A qualidade da Mona Lisa, apesar de talvez se poder dizer que sempre lá esteve, não foi sempre reconhecida. Na verdade, a qualidade só foi sobejamente reconhecida depois da tal explosão de fama. E isso é a chapada na nossa cara. Em arte e talvez em tudo o resto, o pensamento crítico é mesmo a única forma de destrinçar uma coisa da outra, já que o que se define como “qualidade” pelos “especialistas” é muitas vezes sinal do que se quer dizer que é “o bom” e/ou “o belo”, coisas que são mais da moral que flutua com os tempos e as sociedades do que valores universais de todos os tempos. Porque isso, convenhamos, não existe. Todos os valores são construídos. Toda a qualidade é situada. Toda a “obra prima” é famosa porque reforça um sentimento de superioridade qualquer.
O episódio que tornou a Mona Lisa famosa tem várias etapas, e a primeira aconteceu em Agosto de 1911. A pintura estava pendurada numa das alas do gigantesco palácio do Louvre, em Paris, relativamente próxima de outras pinturas renascentistas, e com pouco ou nenhum destaque nos guias da colecção que eram publicados até ao fim do século XIX. O Louvre tinha tantas peças e estavam todas tão amontoadas que não havia uma noção de sacralidade desta ou daquela obra. Os visitantes que eram dados às letras, nomeadamente os escritores e intelectuais de toda a parte do mundo ocidental que residiam em Paris, escreviam muitas vezes nos seus diários sobre visitas ao Louvre, mas a Mona Lisa não era uma das obras que descrevessem demoradamente. Simplesmente, era uma pintura que não causava grandes paixões. Isto é, até que causou uma grande paixão num italiano.
Vincenzo Perugia não era “um italiano” qualquer, ele descrevia-se a si mesmo como um pintor, embora trabalhasse como pedreiro e tivesse sido preso várias vezes por bebedeira e desacatos. O desgraçado do Perugia era discriminado por ser pobre e italiano, e explodia frequentemente. Quando fez um trabalho no Louvre viu a Mona Lisa e pensou que aquela pintura de um seu concidadão estaria melhor nas suas mãos do que a adornar aquele palácio de devassidão luxuosa, numa nação que tão ostensivamente se sobrepunha a todas as outras da Europa. O Sr. Perugia estava com raiva e pôr as mãos na Mona Lisa foi um pensamento que se lhe meteu na cabeça como ideia froidiana de possuir aquilo que na sua vida real nunca teria.
Convencidos que foram dois ou três amigos, também italianos, meteram-se numa despensa no domingo à noite e ficaram lá até segunda-feira de manhã, dia em que o Museu estava fechado aos visitantes. O Louvre tinha tão poucos guardas que não lhes foi difícil partir o vidro da moldura e enrolar a tela para debaixo do casaco. Os compinchas nem quiseram nada disso, estavam vingados do que quer que fosse que tinham contra o sistema, a capital, a burguesia ou o mundo.
Só na terça-feira, quando o Museu abriu aos visitantes outra vez, é que deram com o roubo e aí – como se diz – deu bronca. Os jornais deram a notícia com fulgor e, tendo em conta que naquela época toda a Europa lia os jornais parisienses, o roubo da Mona Lisa tornou-se um tema muito maior do que a Mona Lisa em si. Os intelectuais anti-sistema, eles próprios tão críticos da burguesia como os italianos emigrantes (embora boémios e geralmente suportados por um familiar rico qualquer) acharam tudo aquilo hilariante. Fizeram-se espectáculos de revista sobre o roubo, humilhando o Louvre e a sua gestão. O roubo tornou-se um episódio épico da cultura popular. E quanto à polícia, demonstrava-se totalmente incompetente para resolver o mistério. Até prenderam por engano alguns artistas pouco famosos, como por exemplo o Picasso, que se davam com gatunos de baixo gabarito que já tinham metido ao bolso pequenas estatuetas para as passar no mercado negro.
O Perugia anda trabalhou mais uns meses em Paris e depois meteu a tela no fundo de uma mala e regressou a Itália. Aquela coisa toda estava a assustá-lo, pois na verdade ele roubara uma pintura quase incógnita e agora ela era super famosa. Uma vez chegado a Itália ele esperou que a fama esmorecesse e depois foi para Florença, a meca da arte clássica, e tentou vendê-la. Estávamos já em Dezembro de 1913 e só porque o próprio Perugia a tentou vender é que se deu com a Mona Lisa. O italiano cumpriu oito meses de prisão e a obra regressou a Paris com pompa e circunstância. O processo foi fotografado, descrito de novo em todos os jornais, e fez-se depois uma tournée com a pintura, indo como obra oficial do Louvre a museus de Florença, Milão e Roma. Era a Paris, a grande cidade das luzes, que cabia em exclusivo o papel de mostrar esta pintura de um italiano aos italianos, nos seus termos e com a sua autoridade. A fama da Mona Lisa era agora, nesta segunda parte do episódio, a confirmação do “sistema”.
A fama da Mona Lisa ficou garantida quando apareceram mais de cem mil pessoas para a ver nos dois primeiros dias em que foi restituída ao Louvre. Hoje em dia isso não aconteceria, toda a gente a veria no Google.