+1 202 555 0180

Have a question, comment, or concern? Our dedicated team of experts is ready to hear and assist you. Reach us through our social media, phone, or live chat.

A JMJ foi uma maquete, não uma representação da igreja portuguesa

Anteriormente abordei as nuances pessoais que impedem as obras públicas de serem concretizadas. Não é muito diferente no trabalho da igreja ou das instituições particulares de solidariedade social ligadas à mesma.

É difícil saber por onde pegar primeiro, mas comecemos pela Jornada Mundial da Juventude em Lisboa. À priori foi um sucesso social e logístico. Apesar de um marketing em cima da hora, com um website e app construídos e finalizados quase em cima do evento, um palco finalizado na hora, e negociações relâmpago, mais de um milhão de pessoas assistiram ao evento dentro e fora dos espaços reservados. A TV dedicou mais de 72 horas exclusivamente ao evento, e a arte e testemunhos tocaram até os não-crentes. A igreja mostrou-se inclusiva e aberta a vários credos, e ainda teve tempo para um sunrise set do DJ Padre Guilherme. Foi passada ainda uma imagem ao mundo de uma era pós-cristã, onde o cristianismo está presente nos jovens, mas nas modernas formas de celebrar a fé, longe das imagens de um Cristo a jorrar sangue, e mais próximo da Cruz.

Porém, não é esta a igreja que temos na maior parte do país, muito menos no interior – com as esperadas exceções.

Problemas Estruturais

O que vimos na JMJ2023 foi uma maquete do que a nova geração deseja para a igreja. Maquete que ainda está por ser instalada nas paróquias do país, muitas delas com padres velhos que nada fazem, embora não impeçam de fazer, ou pior, padres que fazem das homilias uma lição de moral mascarada de confissão pessoal. São aqueles que usam o mínimo necessário de tecnologia, e vêm os paroquianos como uma inconveniência para ganhar o dia: não fazem e não deixam fazer.

Parte da responsabilidade está nos Bispos. Reconhecem as falhas sociais e de liderança de certos padres, mas ainda assim os enviam para servir em paróquias em vez de os expulsar ou mantê-los por perto no seminário. Isto deve-se em parte à sua suscetibilidade ao agradar dos egos, aliada à ingenuidade católica que acredita piamente que estes padres mudam de atitude ao serviço de uma paróquia. Na prática está a ser dado mais poder a alguém que só procura servir o mínimo, até a ele próprio. Isto torna o processo de seleção altamente falível.

Após a colocação deste padre, torna-se difícil convencer um Bispo a retirar o padre da paróquia. Simplesmente mudá-lo não é sustentável porque o resultado é sacrificar outra paróquia para tentar reparar o que foi estragado nesta. Só mesmo um caso de forte rejeição é que pode convencer o Bispo a enviar um padre de novo para o seminário, ou se o próprio padre pedir ao Bispo para sair.

A única forma de contornar isto está nos leigos e nos jovens, que organizam eventos por iniciativa própria graças a uma tremenda vontade e fé pessoal. Fazem-no por sentido de responsabilidade à comunidade, e genuíno sentimento de gratificação. Porém, mais tarde ou mais cedo surgem ressentimentos, um sentimento de rejeição e falta de liderança espiritual. As coisas vão-se fazendo, mas quando reféns à (boa) disposição do padre. A paróquia entra em piloto automático e age em função para agradar ao pároco, não pelo bem maior dos paroquianos. Isto afasta os jovens, e até os maiores agregadores deles, como os grupos, escuteiros e catequeses. Sem jovens uma paróquia morre, não se moderniza, não se expõe, e muito menos se preocupa em fazer inquéritos para sondar a opinião dos que atendem a igreja.

A resistência na modernização não se deve apenas a uma população velha. Em muitas paróquias nem é a falta de fundos. É o “gatekeeping”, a falta de cooperação. Modernizar a igreja implica democratizar as suas funções, delegar responsabilidades aos mais jovens, e dar mais poder de decisão aos leigos. Muitos padres não querem isso, e vêm uma ameaça à sua posição.

Cabe à Próxima Geração Mudar

O financiamento do Estado a atividades religiosas não deixa de ser perverso e estou completamente no campo evangélico neste tema, mas acredito que o financiamento da JMJ com dinheiro público não foi por falta de crentes. É o resultado de uma sociedade civil amorfa e ao mesmo tempo vítima de todos os problemas atrás mencionados. Está reprimida devido a graves problemas estruturais. Espero pelo dia que padres pedófilos sejam removidos e que os restantes passem a casar. Não chega. Têm de funcionar as deliberações entre os leigos e padres, garantir a segurança, estruturar planos anuais com investimento inteligente na infraestrutura e transparência como forma de serem auto-sustentáveis, dinamizar toda a componente socio-caritativa, delegar grupos de trabalho e construir com os leigos um sistema de confiança.

Ou seja, mesmo que a igreja e os privados tivessem o dinheiro (acredito que tenham) a falta de confiança e aversão a riscos chutaram a responsabilidade para uma câmara disposta a ir em frente e com imensa ambição política – e geopolítica -, procurando prestígio mundial a troco de passar uma imagem que apresenta uma boa ideia para o futuro – mas não retrata o passado nem o presente da igreja católica em Portugal.

Nós levamos a vida como o Bairro Alto: caótica, possivelmente herética, provavelmente com deboche. Depois voltamos à JMJ, isto é, à igreja física, rezar o Pai Nosso. A questão aqui é se realmente refletimos e fazemos melhor, tentando organizar a vida. Ou simplesmente sentimo-nos com consciência tranquila, validados com a confissão, e voltamos à sociedade amorfa sendo amorfos como antes.

Pessoalmente? Aguardo ver um set do Padre Guilherme no Tommorowland.

Share this article
Shareable URL
Prev Post

Adidas: um futuro com passado

Next Post

De turista a refugiado

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Read next