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Servidão Humana

Um dos escritores mais completos que li foi Somerset Maugham. Comercial, genial, sincero, profundo, interessante e equilibrado, Maugham oferece uma facilidade de leitura desarmante para quem crê que só o complexo se aproxima da qualidade. Da selecção de obras de Maugham que se destacam entre a sua vasta produção literária (faleceu em 1965 aos noventa e um anos tendo publicado durante sessenta e cinco), há duas que sobressaem: Servidão Humana, escrito em 1915, e O Fio da Navalha, de 1944. Se hoje, depois d’O Fio da Navalha me ter conquistado aos vinte e dois e Servidão Humana selar a minha paixão por este escritor no ano seguinte, olho para este último como um dos livros que mais me marcaram, sinto que se os relesse, a ordem inverter-se-ia.

Servidão Humana é um suave passeio pelos sobressaltos da vida ao longo de setecentas páginas. Espelhando em muitos aspectos a vida do autor, o livro conta a história de Philip Carey desde os nove até aos trinta e poucos anos, uma história de descoberta, da Arte à Sexualidade, do Amor à Liberdade, até surgir uma paixão doentia que o espolia de tudo, inclusive da própria dignidade, levando-o à miséria: a servidão humana. Se a história é tão dura quanto fascinante (apesar de estas palavras pouco contribuírem para despertar o interesse), a leitura – repito-o – é tão leve que se torna admirável constatar a beleza de conseguir transmitir tanto e tão profundamente com tanta simplicidade (a simplicidade pode dar tanto trabalho).

Como tantos outros, os livros de Maugham foram resgatados da estante do meu pai. Faziam parte da biblioteca da sua juventude, no caso, da velhinha colecção dos Livros do Brasil, com as suas traduções sofríveis e capas bicolores em papel. O livro estava assinado e assinalado com um ano: 1966. Quando o comecei a ler o meu pai disse-me que naquele tempo (em 66 ele tinha vinte e um anos) era um dos livros da sua vida. Também foi e é um dos da minha.

E se os pontos em que a ficção comunica com a realidade em que nos movemos, os momentos que atravessamos e o que construímos da pessoa que somos até ao instante em que decidimos, qualquer que seja a razão ou o acaso, escolhermos ler determinada obra, nos tocam em matérias mais ou menos sensíveis, a intersecção destes dois mundos distintos mas inseparáveis – Vida e Arte – é determinante para a força com que a segunda fica gravada na primeira. Daí eu ter a sensação de que hoje, seria O Fio da Navalha e não Servidão Humana a mergulhar cá bem no fundo.

Não obstante, Servidão Humana é um dos livros mais importantes que li, uma das histórias mais humanas que senti e está entre as memórias literárias mais gratificantes e enriquecedoras que me habitam.

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António V. Dias

Tendo feito a formação em Matemática - primeiro - e em Finanças - depois - mais por receio de enveredar por uma carreira incerta do que por atender a uma vontade ou vocação, foi no Cinema, na Literatura e na Escrita que fui construindo a casa onde me sinto bem. A família, os amigos, o desporto, o ar livre, o mar, a serra... fazem também parte deste lar. Ter diversos motivos de interesse explica em parte por que dificilmente me especializarei alguma vez em algo... mas teremos todos que ser especialistas?

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