fbpx
Bem-EstarLifestyle

Procurei-me

Procurei pela menina que, um dia, já fui.

Pedi permissão à vida para viajar no tempo. Era urgente regressar ao passado. Tinha lá ficado um abraço, que me esqueci dar aquela menina que desconsolada chorava, no degrau da escada, no seu primeiro dia de escola. Via-lhe, agora, uma lágrima a escorrer pelo rosto. Via-lhe a tristeza estampada na alma.

Faltava-lhe o vestido do sorriso, que se tinha perdido pelo caminho. O vestido que se escondera por entre os arbustos que a assustavam, e que lhe vestiram a capa do medo com que pisou o recreio, onde tantos meninos brincavam alegremente.

Hoje, à noite, sonhei com ela. Ouvi-lhe os gritos de medo. Escutei o seu pedido de ajuda.

Por isso, vida deixa-me voltar lá. Deixa-me fazer as pazes com essa menina inocente, que tinha medo de crescer. A menina que só sabia sonhar e tinha receio que lhe ensinassem a viver.

Quero tanto abraçá-la. Dizer-lhe que nunca a abandonei, que ela vive comigo. Que a trouxe para o meu presente, mesmo que nunca tenha reparado nisso. A verdade é que é ela, sempre esteve aqui, ao meu lado. Só que existia uma barreira entre nós duas. Uma muralha que eu ergui, entre o que fui e o que sou. Uma muralha que a fez viver na escuridão, e que, ao mesmo tempo, tirou luz à minha vida.

Ao acordar olhei-me ao espelho. Vi, atentamente, o meu rosto. Reparei em todas as rugas que ali estavam desenhadas. Vi a mulher que estava do lado de cá, que era a evolução daquela criança que tanto passou. A criança que sofreu em silêncio e teve medo de sorrir. A criança que cresceu e tanto omitiu. Tornou-se mulher e disse que amava por ter receio que não a compreendessem.

A mulher que procurou pelo amor nas ruas escuras da sua vida. A que tropeçou em tantos problemas e sempre se foi levantando. A mesma mulher que duvidou da vida, mas a quem a vida tanto ensinou. Era essa a menina-mulher que hoje estava ali, em frente àquele espelho. A mulher que ofereceu o sorriso, que encontrou perdido. Aquela menina que vivia triste e já não se lembrava como se sorria. A menina que devolveu a ousadia dos seus sonhos à mulher tímida, dizendo-lhe que era preciso que ele se vestisse com o vestido da esperança.

Só assim ambas voltariam a ser felizes. Tinham que passar a viver juntas. O abraço que lhe ia devolver seria um abraço para toda a nossa eternidade.

Ela prometeu que não me deixaria voltar a ter medo e eu jurei-lhe que passaria a acreditar nos seus sonhos. Deixaria que o meu coração libertasse todo o amor que nele vivia oprimido. O passado não seria esquecido, mas sim arquivado. A criança, que ainda existia em mim, iria juntar todos os cacos velhos e fazer com eles uma nova mulher. A mulher, que todos os dias lamentava a sua solidão, iria alimentar-se da inocência da criança e construir com ela um mundo de sonhos. O mundo em que ela se tinha esquecido de viver nos últimos anos.

Procurei pela menina que fui e encontrei-me com a mulher que sou. Não posso mudar nenhuma das duas. Só posso fazer com elas uma outra mulher. A mulher que, hoje, decidiu renascer das cinzas onde, ontem, se arrastava. A mulher que quer voar em busca de tudo o que lhe pertence.

Procurei-me a medo e julgo ter-me encontrado ainda a tempo de viver.

Angela Caboz

Olá sou a Ângela, nasci no Algarve (Tavira) em 1966 e desde cedo que me apaixonei pelo mundo das palavras. Sou técnica administrativa e aprendiz de escritora nas horas livres. Escrevo o que a Alma me dita e vivo o que coração me pede ... é assim que as palavras se soltam para colorir as páginas da vida!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Botão Voltar ao Topo

Adblock Detectado

Por favor, considere apoiar o nosso site desligando o seu ad blocker.
%d bloggers like this: