Múmias regressam à vida

Na Sicília, várias criptas de Igreja estão recheadas com vários corpos mumificados, que aí permaneceram em silêncio durante séculos, para finalmente dizerem algo. A mumificação nesta ilha era geralmente efectuada através de deposição do cadáver numa câmara ventilada, drenando-o de fluidos corporais e enchendo-o com palha, ou folhas de louro, não só para preservar a forma, mas também para combater os maus cheiros. Alguns meses depois, o corpo era lavado com vinagre, vestido e colocado num caixão, ou numa prateleira escavada na parede.

Graças a um projecto intitulado Sicily Mummy Project, seis colecções de múmias foram analisadas, através do recurso à radiologia e química, permitindo conhecer melhor a vida daquela ilha, desde o final do século XVI a meados do século XX.

Esta investigação composta por investigadores italianos, alemães, brasileiros e americanos foi liderada pelo antropólogo Dario Piombino-Mascali, do departamento de Património Cultural e Identidade Sicilianas, e pretende revelar como os homens religiosos e os seus ricos mecenas comiam, interagiam, lidavam com as doenças e com a sua própria morte. Segundo este investigador, as múmias são um tesouro único e uma fonte inesgotável de informação, quer para a Biologia, quer para a História, se estudadas apropriadamente.

Raios-X e tomografias computorizadas foram os métodos utilizados. O facto de serem muito menos invasivos que a recolha de amostras e da autópsia, permitem preservar as múmias. A mais antiga data de 1599, altura em que os frades Capuchinhos, isto é, franciscanos, começaram a mumificar membros do clero e, posteriormente, nobres e outros indivíduos, cujo nível de fortuna permitia tal tratamento, após a morte.

Uma das principais conclusões a que se chegou foi a de que os sujeitos mumificados seguiriam uma boa dieta, equilibrada, composta por carne, peixe, cereais, vegetais e produtos lácteos. Todavia, esta mesma dieta teve o seu preço. As radiografias aos ossos demonstram igualmente sinais de doenças como gota e doenças ósseas. De acordo com o investigador principal, estas são doenças recorrentes nos estratos sociais superiores nas sociedades pré-industriais.

Uma vez que mais de dois terços dos corpos mumificados são de pessoas idosas, há sinais também de doenças degenerativas.

Não é apenas na Sicília que este tipo de trabalho está a ser realizado.  Karl Reinhard, um cientista forense da Universidade de Nebraska-Lincoln, lidera um programa piloto, através da análise de intestinos. Das 26 múmias do Sepulcro dos Sacerdotes da Igreja Matriz de Piraino, no nordeste da Sicília e datada do século XVI, houve uma que prendeu a atenção dos cientistas. Trata-se a de um homem falecido com cerca de quarenta anos, que teria vivido no final do século XIX. As análises radiológicas revelam que sofria de um mieloma múltiplo, uma forma de cancro. O mais surpreendente foi, no entanto, descoberto por uma estudante da equipa de Reinhard, Melissa Lein, com a evidência de milkwort, uma planta considerada anti-cancerígena usada na China e na Turquia, mas considerada incomum na Sicília. O uso desta planta, aliado ao mosto de uva, com propriedades purgativas com compostos eficazes no tratamento do cancro e doenças cardiovasculares, demonstra que à época existia já um conhecimento de plantas medicinais.

Todavia, a causa da sua morte poderá estar ligada a outra situação detectada pela análise dos seus intestinos: uma infecção de mais de 600 tricuríase, nemátode parasitário, no seu tracto intestinal. Uma vez que sofria de várias doenças, o seu sistema imunitário estaria vulnerável a esta doença parasitária usualmente associada com estratos sociais mais baixos. O que leva os investigadores a especular que, apesar da sua condição social elevada, teria contacto com camadas sociais mais desfavorecidas

O mais recente corpo mumificado pertence a Rosália Lombardo, de dois anos de idade, chamada de “Bela Adormecida”. Terá falecido em 1920, de pneumonia, e partilha a última morada com outros 1251 corpos das Catacumbas dos Capuchinhos de Palermo. Nestas, os corpos eram embalsamados com produtos químicos e, portanto, melhor conservados. Todavia, a humidade e o pó estão a danificar muitos dos corpos, sendo necessário proceder à conveniente climatização daqueles espaços, de modo a preservar as múmias e assim prosseguir com o seu estudo.

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