Crónicas

Há dias bons

É domingo, estou de saída de uma semana de férias e a habituar-me a estes dias em que os horários dos transportes são diferentes, com espaços largos entre cada autocarro. Perdi dois. Para não chegar tarde ao trabalho, entrei num táxi.

Estava esbaforida, despenteada e cheia de tralha na mala. Assim que entrei, disse qual o destino da viagem e do outro lado respondeu-me: “Bom dia, menina bonita e simpática.” Eu sorri, agradeci e questionei se estava tudo bem com o senhor. Foi a porta a abrir-se para me contar o quão difícil lhe tem sido a vida.

O senhor Carlos tem 74 anos. Era polícia. Reformou-se e tudo corria bem até que um dos sete filhos que tem deixou de pagar a casa, por força do divórcio, cujo fiador do empréstimo é o pai. Passou ele a pagar a mensalidade. Teve um ataque cardíaco graças a isso. A reforma deixou de ser suficiente para tudo.

Sabe? Eu não caminho para novo e, por isso, olhe, deixei-o estar e pago eu a casa. Pronto. Mas também me zango muito com ele. Aquilo foi um cheirinho que a mulher lhe deu. Agora anda aí enrabichado com outra. As mulheres são terríveis. Piores que a droga!

Eu ri-me. Não é a primeira pessoa que oiço dizer que as mulheres são piores que a droga, porque viciam.

Logo a seguir, contou-me que faz tudo pela mulher. A senhora Lisete. Estão casados há 53 anos. A senhora cegou há quatro meses, consequência da diabetes. Contou-me, muito embevecido, que é ele quem lhe dá banho, quem a penteia, que lhe dá a comida à boca. Fá-lo por ter receio que ela decida partir.

Isto quando se chega a velho, já se viveu tudo. Não posso ficar sem ela. Sou apaixonado pela minha mulher desde o dia em que a vi.

Deste casamento, resultaram 7 filhos, 15 netos e 3 bisnetos.

O senhor Carlos, já a meio do caminho, chorou. “Os homens de verdade choram. Nunca confie em quem lhe diz que não chora, porque é macho. Isso são tretas.

Chegados ao fim da viagem, agradeceu-me a companhia e recusou que pagasse a viagem.
Fazemos como nos cafés: fica até mais tarde para lavar a loiça.” Agradeci e, ao abrir a porta para sair, convidou-me para ficar mais um pouco.

Fiquei.

Ando aqui desde as 4h da manhã e ainda não bebi café. Faz-me companhia?

Fiz. Fiquei a ouvi-lo mais um pouco.

Está zangado, porque os filhos se esqueceram dos pais. Aconselhou-me a não ter filhos para não receber ingratidão. Desejou que ficasse apaixonada “por um homem bom, que me faça rir e que não tenha medo de chorar” e que o guardasse para sempre, quando o conhecer. Pagou-me o pequeno-almoço.

No final, abracei-o. Disse-lhe o meu nome, dei-lhe o meu número de telemóvel e prometi que se encontrar o homem que aconselhou seria ele o primeiro a saber.

Perguntou-me no que eu trabalhava, porque lhe pareceu que poderia vir a ser “uma óptima psicóloga“.

Ele rumou para o táxi, eu para o trabalho. Ele feliz por ter desabafado, eu cheia de amor por ter conhecido mais uma pessoa especial, fruto do acaso.

Há dias bons. Hoje é um deles.

E ainda tenho a loiça para lavar desta viagem.

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Sofia Fonseca Costa

Nasceu numa quarta feira de Novembro, no ano 1984, mas não gosta de meio termos. Desde que se lembra que quer ser escritora e mãe. Dizem que no canto do seu sorriso mora um arco-íris. Vive para as palavras e afectos. Não gosta de chocolate. É formada em jornalismo e fez teatro durante mais de uma década. Mãe de quatro filhos a quem chama de Soneto. É autora do livro Murmúrio Infinito. Chamam-lhe Sofes Marie.

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