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Sergei Polunin: um bailarino que dança com alma, amor e sofrimento

Em cada passo de dança há um homem-pássaro que exibe toda a sua envergadura na perfeição. Ele dança magistralmente e é abençoado com um surpreendente talento, com uma capacidade de trabalho e determinação divinais. Ele chama-se Sergei Polunin e foi o mais jovem bailarino principal da história da British Royal Ballet e um dos melhores bailarinos da história da dança. Em palco, todo ele é arte e poesia em movimento. Quase demasiado bom para ser verdadeiro.

Contudo, de que vale o sucesso quando o principal da vida sai defraudado? Esta foi a grande questão existencial que levou Sergei a afastar-se dos palcos da British Royal Ballet em 2011, aos 21 anos de idade, no auge do seu sucesso, precisamente no momento de se tornar uma lenda do mundo da dança. É que o sucesso, vazio de laços e afectos e condicionado às exigências de uma profissão sem margens para respirar, foi demasiado violento e aprisionador para este vulnerável bailarino, carente de afectos e laços familiares…

É o que documenta o filme Bailarino – Sergei Polunin, de Steven Cantor, dedicado ao percurso deste virtuoso bailarino, desde a sua infância na Ucrânia às suas actuações inspiradoras no Reino Unido, Rússia e Estados Unidos. Um documentário a não perder, que nos mostra um artista que pagou um preço demasiado alto para ser o melhor do mundo.

Recuando à sua infância, Sergei Polunin nasceu em 1989, em Kherson, no Sul da Ucrânia, onde todas as famílias eram pobres, condição que não o impediu de ser uma criança feliz e amada. Até aos 8 anos de idade era brilhante a ginástica, actividade que Sergei adorava. Atingida esta idade, o sistema educativo do regime político de então é que decidia a actividade física dos jovens. Entre a ginástica e o ballet, escolheram para Sergei o ballet. E foi assim que tudo começou.

A ambição da sua família para que Sergei fosse bem-sucedido foi de tal ordem que este foi matriculado na Escola Coreográfica de Kiev, a melhor da Ucrânia. E foi a partir daqui que a felicidade deste rapaz foi-se diluindo, precisamente quando se mudou para Kiev com a sua mãe, separando-se do pai, que emigrou para Portugal, e da avó, que emigrou para a Grécia, a fim de suportarem o valor das propinas e as despesas de Sergei. O núcleo familiar desfez-se numa idade crítica em que os laços definem a estrutura emocional e a identidade pessoal, tendo recaído sobre o jovem uma pressão gigantesca para que este fosse bem-sucedido.

A mãe deixou de ter vida própria, dedicando-se única e exclusivamente a Sergei, exigindo que este fosse o melhor. E Kiev não bastava aos olhos da sua família, motivo pelo qual aos 13 anos Sergei se mudou para Londres para ingressar na Royal Ballet School. A sua mãe não conseguiu visto para permanecer em Londres, tendo regressado para a Ucrânia, deixando o filho a cargo da Escola.

A dança era amor e sofrimento, em simultâneo. A união e a separação. A antítese.

Sergei amava o ballet e treinava o dobro do tempo em relação aos colegas bailarinos, porque aquela era a oportunidade de voltar a reunir a sua família, sendo o melhor e atingindo o sucesso. No entanto, após um ano em Londres, os pais separaram-se e o bailarino foi perdendo a motivação, pois já não sabia por que dançava, por que se esforçava tanto…

Aos 19 anos tornou-se no mais jovem bailarino principal da história da British Royal Ballet. Um talento nato, uma entrega incrível à dança, como se através do movimento triunfal do seu corpo encontrasse o amor e a paz em todas as formas. Todavia, com o passar do tempo Sergei foi entrando numa espiral de revolta, rebeldia, drogas, tatuagens, depressão e relações tensas, levando-o à beira da autodestruição. Afinal, perdera o objectivo do seu sucesso. Eis que aos 21 anos, no topo da sua carreira, mas em busca de si próprio e de um sentido para a vida, Sergei Polunin decidiu abandonar a Companhia.

Para celebrar a sua despedida, o seu talento puro e ambição selvagem, gravou uma última dança ao som de “Take Me to Church”, de Hozie. Coreografada pelo seu melhor amigo, o bailarino Jade Hale-Christofi e sob a direcção de David LaChapelle, após um trabalho intenso e emocionalmente forte, o vídeo foi lançado no Youtube, tendo atingido mais de três milhões de visualizações em apenas uma semana. Uma performance inesquecível. Uma entrega perfeita. Uma explosão de pura magia e emoção.

Sergei Polunin é um animal da dança. Um bailarino que não é deste mundo e que nos faz questionar sobre o preço do sucesso e estrelato.

O vídeo da dança “Take Me to Church” >> clicar aqui

O trailer oficial do documentário >> clicar aqui

Manuela Gonçalves Pereira

Madeirense, casada e mãe de dois filhos, os seus amores-para-sempre. Residente em Coimbra e licenciada em Comunicação Social, inspira-se nas pessoas e em tudo o que a vida oferece. Enveredou pela comunicação das organizações, área em que actualmente exerce a sua actividade profissional. Ler {livros e o mundo} e escrever aqui e ali são alguns dos seus passatempos favoritos. Encara o sentido de humor como uma forma de desconstruir preconceitos. Lema de vida: em tudo há sempre uma oportunidade...

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