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(sem) filtros

Estamos ligados. Todos nós. Vivemos num mundo em que uma ideia viaja mais rápido que o seu som e até que a própria luz. Vivemos numa sociedade sedenta por mais um “clique”, por mais um “refresh” e viciada num “último scroll e depois começo”.

Paramos vidas, rotinas, planos e momentos para receber uma nova opinião. Em nós e por nós viajam milhares de ideias que outros não teriam, se nós não as aceitássemos.

Então, a questão é: são as melhores que posso ter?

A nossa realidade é agora repartida em duas dimensões, sendo cada um de nós dividido entre a sua versão online e a sua realidade offline. Contudo, o mundo virtual não passa a ser um espaço vazio, sem regras nem valores.

Inúmeras medias tecnológicas – como filtros de mensagens e a revisão de conteúdos–, bem como administrativas têm vindo a ser aplicadas com o objetivo de penalizar os utilizadores que, exercendo a sua liberdade de expressão, violam direitos fundamentais de outros cidadãos.

Contudo, não parece que essas, sendo necessárias, sejam medidas suficientes para combater o ódio.

O ódio mora em nós, alimentado por quem somos e por cada escolha que fazemos.

Nelson Mandela disse, na sua autobiografia Long Walk to Freedom, em 1994, que “ninguém nasce a odiar outra pessoa pela cor da sua pele, pela sua origem ou pela sua religião. Para odiar, as pessoas têm que aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar.”

Carregamos nas costas o peso do futuro, a medida com que cada pessoa será medida é a que usarmos para medir. O ódio é mais fácil que o amor porque não precisa de ser compreensivo, não precisa de ser resiliente, não precisa de ser altruísta. O ódio esconde-se atrás de “estou só a dar a minha opinião” ou de um “não estava a falar de ninguém em concreto”. O ódio é cobarde, porque é a escolha mais fácil, é uma demanda pela imposição de uma vontade e de uma realidade que já é maioritária… É a escolha de não nos colocarmos no lugar do outro e de termos a cega certeza de que “por ali é o caminho”.

Medidas administrativas, tecnológicas, políticas nunca serão suficientes. Nunca o serão, porque esse passo começa em nós.

O ódio é uma escolha pessoal, uma vontade própria de impor a nossa verdade. Desde sempre, desde que o mundo é mundo e a história existe, milhares morreram às mãos do ódio, em palavras ou na falta delas, em ações ou na sua escassez…

Joana Raquel

Cresci entre dezenas de alcunhas, centenas de histórias e milhares de afetos: isso fez de mim a "Joana do mundo", mas também a "Joana da Lua". Aos 20 anos, vivo cada dia com a paz que as palavras dão - e tiram -, sempre a pensar numa próxima viagem, numa outra conquista (sou Joana da Lua porque o mundo nunca me chegou). Ainda assim, todos me tratam por "Ju"!

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