CulturaMúsica

Out & Loud – Maio 2019

Fique a conhecer três dos álbuns mais marcantes do mês. Por Liana Rego

Father of the Bride (Vampire Weekend)

Capa do álbum “Father of the Bride”, lançado no dia 3 de maio de 2019

Chegou o quarto álbum de uma das bandas mais interessantes da modernidade. Em contrapartida, Father of the Bride não é o álbum mais interessante do seu repertório – o que não é nenhum problema colossal, porque não deixa de ser um trabalho notável.

Seis anos depois de Modern Vampires of the City (2013), o novo trabalho dos nova-iorquinos traz o som alternativo do costume, misturado com uma sonoridade pop mais global (“Stranger“) e bastantes reminiscências de country. Este último género dá origem a algumas das faixas mais incríveis do álbum: “Hold You Now“, “Married in a Gold Rush” e “We Belong Together“, todas com a colaboração essencial de Danielle Haim.

É certo que os coros celestiais da primeira canção (“Hold You Now”) levantam logo um sentimentalismo e uma envolvência que transcendem qualquer explicação. O que, de certa forma, se vai repetindo em alguns momentos do restante alinhamento. A juntar a isso, o sentido de moderno e vintage (“How Long?“) continua a ser um dos grandes fortes da banda, com a nostalgia tão bem cantada pela voz sassy de Ezra Koenig. É através desses elementos que surgem outros dos destaques: o paradoxo de “Harmony Hall“, cuja letra expressa problemas existenciais, mas cujo instrumental é capaz de eliminar o desânimo de qualquer um/a; “This Life“; a beleza acústica e o registo inesperado de “Big Blue“; o momento groovy em “Sunflower” (com Steve Lacy); e “2021“, com a palavra “boy” em loop, uma voz ternurenta e as melhores guitarras do álbum.

Em conclusão, quando se fala de Vampire Weekend, fala-se de uma banda complexa, com atenção ao detalhe, inovadora e ousada. Em Father of the Bride continuamos a ouvir os Vampire de sempre, mas mais românticos, ternurentos, doces e com uma abordagem mais soft. Continuam com o sentido de humor aguçado e isso é visível em algumas das frases faladas que são incluídas nas faixas; mas sendo um álbum particularmente longo, com 18 canções, há momentos que desapontam e que parecem evitáveis.

Um dos maiores achados do quarto álbum dos nova-iorquinos é, definitivamente, o poder das influências musicais pelas quais se deixam inspirar. Há algo de muito produtivo na extração que a banda soube fazer dessas fontes. Essa é a maior prova de que os Vampire Weekend são relevantes, mantiveram-se relevantes e farão coisas cada vez mais “fora da caixa” com o seu trabalho criativo.

Desalmadamente (Lena d’Água)

Capa do álbum “Desalmadamente”, lançado no dia 10 de maio de 2019

Lena d’Água regressou cheia de garra, coisa que não deve ter sido fácil depois de três décadas fora do mundo da música. Mesmo assim, o seu retorno imprevisível é prova de que nunca é tarde para voltar a (en)cantar. Desalmadamente é um trabalho de excelência ao nível dos arranjos, das letras e das melodias.

As letras e músicas, todas da autoria de Pedro da Silva Martins, não poderiam desapontar; e não o fizeram, de maneira nenhuma. A produção e os arranjos, estes últimos especialmente, foram pelo mesmo caminho e brilharam ao longo das dez faixas do álbum. A jovialidade, o toque moderno, a frescura pop e, também, a voz de Lena, que em nada parece ter enfraquecido, são as armas que fazem de Desalmadamente um trabalho a ter em conta para as estações de rádio (e a canção homónima é um bom exemplo).

Mesmo as gerações mais novas, que podem não conhecer o repertório anterior da portuguesa, poderão apreciar a contemporaneidade que se sente no disco. E, claro, como tudo tem sempre uma explicação, é útil referir que a produção e os arranjos, que dão esta atualidade ao alinhamento, são da autoria de artistas como Benjamim, Sérgio Nascimento, Mariana Ricardo e Francisca Cortesão. O que têm em comum estes quatro nomes? São todos artistas da modernidade, que sabem muito bem como fazer boa música.

Os destaques vão para “Minutos“, canção sobre a força deste regresso que “tem mesmo de ser“; “Hipocampo“, uma das faixas com arranjos e instrumental mais marcantes; “Voltas Trocadas“, a grande balada de amor; e os momentos mais gloriosos, “Queda para Voar“, “Grande Festa” e “Formatada“. Nestas três faixas estão concentradas as letras mais bem conseguidas do álbum; é nelas que reside o retrato de Lena d’Água e do seu percurso, por vezes conturbado, pelos caminhos da vida artística e da fama. Desalmadamente é uma grande cartada para garantir que ouviremos mais de Lena d’Água no século XXI.

Spirit (Rhye)

Capa do álbum “Spirit”, lançado no dia 10 de maio de 2019

O projeto liderado pelo canadiano Mike Molish, que surgiu em 2013, regressa aos discos apenas um ano depois do último lançamento (Blood, 2018). Felizmente, daí não se originou nenhuma repetição do trabalho anterior. Em Spirit, continuamos a reconhecer, fácil e rapidamente, a pegada Rhye. No entanto, é inegável que existe uma atmosfera muito diferente.

Este é um álbum que embala com o piano, em todas as oito faixas; não é por acaso que se assume como um piano project. É neste instrumento que reside a mudança de atmosfera, que rejeita qualquer associação ao sensual – que tão bem vestia a sonoridade dos primeiros dois trabalhos discográficos – e passa para um registo altamente intimista e introspetivo. Não se pode dizer que é uma melhor pele para o grupo.

De qualquer forma, o piano é realmente feito herói. Faixas como “Malibu Nights” e “Green Eyes“, onde não há elementos vocais, representam dois excelentes momentos do alinhamento. Os tempos de silêncio fazem de Spirit um álbum bem respirado, com letras pouco densas e diretas; e a intensidade do piano, mesmo na forma como o seu som foi captado, deixa-nos a pele arrepiada. Parece que até se ouve o som das teclas a serem pressionadas para fazerem sair as notas.

A suavidade da voz de Molish continua um forte traço de Rhye. Essa é, talvez, a característica que assegura, antecipadamente, o sucesso do registo, porque este continua a ser tão envolvente quanto a voz do seu líder. Isso é bem visível nalguns dos maiores destaques de Spirit: “Needed“; a comovente e melancólica “Patience“, que conta com a participação do produtor islandês Ólafur Arnalds; “Awake“, que anuncia toda a sua profundidade e emoção logo no início, ganhado cada vez mais intensidade e intimidade com o trabalho de cordas; e “Save Me“. Esta última é um momento único no álbum, mais animado e groovy, que inverte a lógica seguida nas outras canções. Começa forte, mas vai-se despindo de elementos no final, tornando-se cada vez mais intensa.

When it’s out, put it loud.

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Liana Rego

Licenciada em Jornalismo, pela Universidade de Coimbra, e Mestre em Cultura, Património e Ciência, pela Universidade do Porto. Jornalista na Conexão Lusófona e crítica musical nos tempos livres (que são todos, porque não gosta de se sentir enclausurada). Ativista. Vegetariana. Apaixonada: por música, pela interpretação da vida e pela Arte de revolucionar.

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