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Pampilhosa da Serra

Diário de um Fim-de-semana no Interior

As curvas do Zêzere

Na ausência de memórias do interior, o que escrevo sobre o país profundo não passa a plasticidade do postal turístico. E ainda que durante a viagem a Sofia vá desfiando as vivências na Pampilhosa, terra do pai onde vamos passar o fim-de-semana prolongado, o mais consigo é transpor uma época que vivi noutro lugar para este cenário no meio da montanha. Os anos oitenta também foram meus, nossos, mas em lugares diferentes.

Pela frente, montanhas onde aldeias acesas como velas na encosta iluminam a paisagem, ora verde, ora semi-despida pelo grande incêndio de Outubro de 2017. O dia estava triste, mas até os dias tristes trazem beleza quando quem nos acompanha os ilumina, como as velas que eu imaginava pela noite na montanha, daí a seis ou sete horas.

Parámos em Pedrogão e os maranhos n’O Emigrante (estes preços desapareceram da capital) realinharam as reflexões, do estômago para o lugar: falámos sobre o futuro que por aqui se oferece a quem decide ficar. Pouco mais que velhos formam a gente que vai aguentando a terra, as terras, o interior. Porque não é Pedrogão ou a Pampilhosa mas todo um país para lá da implacável linha imaginária a cinquenta quilómetros da costa (cinquenta talvez seja muito). O pensamento seguinte já não o verbalizei: quem sou eu para assumir serem estes que vemos, mais infelizes do que eu, ou outros como eu, admitindo que na cidade formamos uma massa única? Por que razão o futuro que neles vejo sombrio será visto da mesma forma pelos próprios. Mais: terei eu, movendo-me nesta linha de montagem alternada entre trânsito e reuniões, um futuro assim tão mais risonho? E o presente?

Pampilhosa (vista da casa)

Arquitectonicamente a Pampilhosa nada tem para oferecer, encavada num vale no meio de montanhas, mas este lugar tão longe das reuniões e dos prazos, dos objectivos e resultados, de tudo o que fazemos por outros que nem conhecemos, a troco de um soldo que nos vai mantendo ligados à máquina, é maravilhoso. O interior traz esta sensação a quem nele somente vê o contraponto à vida que acontece do lado de lá da fronteira vertical que racha o país em dois. A dureza da vida dos que por aqui lutam por ganhar cada dia permanece escondida. Porque nunca a vivi. Somente apareço de passagem num fim-de-semana.

A paisagem que atravessámos até aqui planta tantas impressões de falsa pertença que nem sempre encontro palavras; muitas ideias extinguem-se mal se acendem pois não é possível reter tudo, ir atento à estrada e alimentar a conversa com a Sofia (nunca estou distraído: estou é a pensar noutras coisas!). O Zêzere, visto da Nacional 344, os lugares que visitaremos amanhã, o passeio pela Pampilhosa, junto ao rio, as flores no cemitério onde repousam nomes em extinção na cidade – Maria Otília, Maria Deolinda, Delfina, Arminda – lembrando que, no interior ou no litoral, não somos assim tão diferentes.

Jantamos no único restaurante da vila, sede de concelho. Recordo os tempos em que fazia estes programas sozinho e trago essas lembranças. Se em alguma ocasião não me dei mal, as paisagens que agora cruzamos ganham cor, luz, memória, com a Sofia. A vida torna-se mais vida; tudo o resto, o que foi e o que acelera na rotina, trava a passada, afastando-se. Viajar para o interior reequilibra-me. Na Pampilhosa, a terra da família dela (que também é dela), reequilibra-nos.

Álvaro

A hora mudou esta noite e dentro de casa tudo cola com a humidade fria da noite. Desperto às cinco da manhã (seis no horário antigo) e tenho que escrever para fixar as ideias que proliferam na quietude da noite. Com o casaco por cima do pijama, abro o computador (a Sofia nunca acorda comigo ao lado). Quando escrevo com uma ideia vaga é mais fácil pois o texto vai-se estruturando em crescendo, ligando os pensamentos. Pior é quando estes pululam ao longo do dia (ou da noite se, acordado, pouco mais me resta do que repassar o telemóvel – acender a luz para ler não é possível aqui), parecem pipocas a saltar, forno aleatório onde as mais bonitas ligações se estabelecem. Neste caso tenho que escrever. Manietado pelas ideias que a custo fui agarrando à memória e que nunca saem como da primeira vez que as conheci, tento dar-lhes forma. Mas não é a mesma coisa.

Uma viagem nunca é só a viagem que desenhamos pelos lugares que visitamos, mas todas as cores e sensações com que a tingimos. Poderia escrever mil páginas na Pampilhosa da Serra sem nunca referir as montanhas, os rios ou o interior e, não obstante, é por estar nesta terra, neste Outono da minha vida – estação preferida – que todas estas imagens borbulham.

Dificilmente aguentaria mais de um mês neste lugar a menos que as prioridades de invertessem: uma vida cultural no meio rural é um dos sonhos mais recorrentes. Na ausência de vivência de campo, na infância ou em qualquer outro lugar, levo de empréstimo as memórias literárias, com Júlio Dinis e Miguel Torga à cabeça. Mas ainda que seja a nossa interpretação, as letras trazem sempre a visão de outrem. Se Torga escrevesse hoje os Novíssimos Contos da Montanha passados na Pampilhosa, não seria esta Pampilhosa da Serra que eu vejo mas a sua. Tão reconhecível na paisagem e falta de vida que vejo; tão estranha na novidade que outra visão aporta à nossa vida.

A roupa, tal como o livro, despertaram húmidos tal a condensação por estes lados. Os meus ossos (ou tendões, nunca sei bem) também deram o aviso. São os ares da montanha. Aqueço as mãos junto à torradeira para não desperdiçar o calor libertado pela resistência que tosta o pão.

A chuva e o nevoeiro vieram em força. Serpenteámos pela montanha até à barragem de Santa Luzia, descemos até Orvalho e parámos em Oleiros para almoçar – bucho, para completar os pratos típicos. Parámos em Álvaro e seguimos até Fajão. Aí, decidimos arrancar para o último destino turístico do dia, Piodão. Em nenhuma destas paragens conseguimos ver um boi à frente: se não era a chuva era o nevoeiro, se não era o nevoeiro era o vento e se o tempo dava uma trégua não havia lugar onde parar o carro para sacar uma misera foto. E contudo, ainda que a atenção à estrada tenha sido redobrada, foram sete horas de road trip que deixou em suspenso uma sequela, nessa próxima vez com paisagem visível, por favor.

Por todos estes lugarejos, uns mais perdidos que outros, voltou a convicção de que em breve, já ninguém será “da terra”. O despovoamento destes lugares é tal que poucos poderão dizer “sou de Fajão, da Pampilhosa ou de Oleiros.” Seremos todos filhos da elite litoral. Então, esta grande terra do interior deixará de ter quem a reclame.

Piodão, ou o postal turístico

O ruido das pás dos aerogeradores lembraram-nos a razão por que são plantados lá no alto, longe da população. Em tempos comentei com a Sofia se um dia os habitantes do futuro olharão para estas estruturas do passado, quando elas perderem o comboio do progresso, e verão algo romântico, tal como hoje vemos os antigos moinhos de vento. Não nos passa hoje pela cabeça, ao apreciar aqueles charutos com três pás a rodar no topo, mas quem sabe? Um dia em que a electricidade seja produzida e distribuída sem qualquer estrutura, como a internet, não olharemos nós para estes monstros com ternura? No entanto, vinca-se uma diferença para os moinhos de antigamente: a gente que nestes trabalhava era da terra, havia uma ligação à história do lugar para o qual eles produziam. As torres de hoje espartilham-se entre fundos de investimento sem rosto e accionistas de empresas muito importantes que existem lá longe, num escritório da capital ou numa offshore perdida numa ilha longínqua. Pensando melhor, dificilmente estas ventoinhas significarão mais para as gentes destas terras do que as rendas recebidas pelos municípios pela sua implantação.

O sino persiste à hora certa ou às meias horas. Neste Dia de Todos os Santos, a marcação do tempo dilui-se na celebração religiosa, mas este texto não é mais sobre a Pampilhosa da Serra ou os costumes que a cidade perdeu e que a província ainda segura. Deixou inclusivamente de exprimir uma visão um tanto saudosista/resignada de quem olha para o mundo com uma perspectiva literária, muito mais do que com a experiência de vida que por aqui não tenho. É sim o reconhecimento de uma impossibilidade: a de que os antigos costumes se mantenham para felicidade do povo que os alimentou. Talvez essa vida idílica só tenha acontecido pelo olhar dos que não passaram as duras privações, tendo que emigrar, para França ou para a cidade, em busca de algo que aqui não encontravam. Talvez essa felicidade nunca tenha de facto existido. E como a memória é capaz de nos ludibriar das formas mais ardilosas, os próprios reconstroem por vezes uma infância ou um tempo que nunca foi. A vida é dura por aqui, como o é na cidade. Durezas diferentes das quais não sou um digno representante – felizmente – apesar das repetidas queixas. Tenho apenas a sorte de testemunhar os últimos seres a viver a sua vida neste lugar. Daqui a trinta anos, pouco restará da vida no interior além das capitais de distrito, das residências de fim-de-semana dos que partiram para o litoral e dos Turismos Rurais para curiosos como eu, que julgam sentir o pulso da ruralidade num quarto com ar condicionado, casa-de-banho completa ou o tecto listado de vigas envernizadas para nos tentar com o “conforto” de antigamente.

Regressamos hoje. Passaremos pelas Fragas de São Simão e por Dornes (que a Sofia não conhece: finalmente algo para eu lhe mostrar nesta viagem!). Fecho aqui o texto; amanhã estarei de regresso ao escritório. Estes dias diluir-se-ão. Poucas vezes voltarei, na total ausência de tudo o que por aqui acontece. E no entanto, apetece-me voltar. Com menos chuva, sem paredes manchadas e o nariz a ameaçar o pingo, mas também sem o impiedoso frio invernal ou o tórrido bafo do Verão. É difícil gostar do interior quando as exigências começam logo pelo clima. Talvez esta tenha sido apenas primeira aula de uma nova aprendizagem.

 

Pampilhosa da Serra, de 30 de Outubro a 1 de Novembro de 2021

Dornes, no regresso

António V. Dias

Tendo feito a formação em Matemática - primeiro - e em Finanças - depois - mais por receio de enveredar por uma carreira incerta do que por atender a uma vontade ou vocação, foi no Cinema, na Literatura e na Escrita que fui construindo a casa onde me sinto bem. A família, os amigos, o desporto, o ar livre, o mar, a serra... fazem também parte deste lar. Ter diversos motivos de interesse explica em parte por que dificilmente me especializarei alguma vez em algo... mas teremos todos que ser especialistas?

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