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Crónicas

O que importa

Que bom seria se apenas os cheiros tivessem importância. Um cheiro doce e delicado, outro mais agreste, mas forte e ainda outro que soubesse bem picar. A visão, seria enganadora e matreira, enfeitava somente o rosto e criava a moldura que se pretendia. O cheiro, o tal que inebria e que deslumbra, seria a perfeita identificação do carácter e não havia enganos de maior.

Os toques, aquelas carícias que tanta falta fazem, seriam como o nariz que acumulava conhecimentos e os guardava para si, saco de todas as memórias necessárias e preciosas. As outras, as que eram somente de conveniência, seriam soltas pelo ar para que fossem apanhadas por quem delas tivesse necessidade. Ou voassem apenas para locais onde não perturbassem.

Os olhos podiam sorrir ou até mesmo chorar, mas o nariz, esse fiel e inteligente órgão, saberia fazer a filtragem, descodificar todas as verdades e recuperar o que de benéfico poderia conseguir. O lastro seguia o caminho certeiro onde ficasse sem incomodar. Para sempre num mundo de vazios onde a sua presença era a completa ausência.

Os lábios apenas reproduziam o mínimo, o que valia a pena e o sorriso, aquela curva maravilhosa que todos deveriam saber usar, seria a paleta de cores a ministrar. Umas eram de fortes e duras pinceladas e outras, as singelas e ingénuas aguarelas, com tons de fazer sonhar. E os tons? Esses seriam de bem enlouquecer para que o certeiro tivesse razão de ser.

Os cheiros, ai, os cheiros, que tanto podem dizer. Há quem não se cheire e não se saiba interpretar. Há quem não tenha cheiro e não o pode inventar. Há quem tenha um cheiro que a todos consegue afastar. Há quem cheire tão bem e, por isso, tem a arte de saber enfeitiçar. Cativa os que cheiram com emoção.

E o amor, esse sentimento tão frágil, sabe como o cheiro do outro, da pessoa amada, se entranha na pele e vai direito e certeiro ao coração. A seguir, muito suavemente, faz com que os olhos se fechem, que se sinta o que de maior existe e, então, começa a magia que se quer eternizar. É o baile dos sentidos, dos cheiros de encantar, dos feitiços de elevar e dos sonhos para concretizar.

O amor é de todas as cores e de muitos sabores, mas o cheiro, o que envolve os verdadeiro amantes, os que se sabem dar, aqueles que ainda pairam em nuvens de desejos e de quereres, é tão puro, doce e suave, que os consegue manter sempre a flutuar, num plano etéreo, onde o especial fica a reinar. O amor nunca se deixa enganar. O amor é um cheiro que vicia e que não se quer jamais largar.

Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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