Talvez seja um problema

A semana do dia de Portugal foi marcada por 3 ataques de grupos neonazis e silêncio por parte de Luís Montenegro. O mesmo governo que antes não se calava com a sensação de insegurança parece estar subitamente com a sensação que não se passa nada. Talvez a insegurança fosse uma sensação útil só quando ainda podia ganhar mais votos, ou talvez lhe seja mais fácil levantar um braço direito do que a voz.

A última vez que esteve tão calado foi talvez quando lhe perguntaram sobre os clientes da sua empresa.

O primeiro ataque foi feito ao ator Adérito Lopes quando este estava prestes a entrar no teatro para representar Camões. Seria de esperar que nacionalistas adorassem o personagem, mas para isso talvez fosse necessário o mínimo de compreensão da língua portuguesa. Se Camões visse como os maiores defensores da sua obra escrevem, talvez tivesse vontade de furar o outro olho.

Aparentemente neonazis odeiam o teatro, até porque gostam mais de ter uma mão esticada a apontar para cima do que a bater na outra.

Carlos Moedas, presidente da Câmara de Lisboa foi prontamente no mesmo dia ao teatro onde houve agressões de neonazis “dar um abraço e solidariedade”. Raios! Se pelo menos o presidente da Câmara pudesse fazer alguma coisa para evitar que isto voltasse a acontecer…

Logo após o agressor veio a público dizer que estava bêbedo e não é racista, porque até já viveu em África. Toda a gente sabe que não dá para ser racista no mesmo continente em que se inventou o Apartheid e se industrializou o tráfico de escravos.

Quem é nunca se embebedou e acabou a vomitar nazismo? Ninguém? Ah, raios! Então, se calhar o agressor era mesmo neonazi? Afinal, o agressor só se dá bem com eles e almoçou com eles e protestou com eles e, ano após ano, vai ter com eles, mas às tantas nem é neonazi como eles…

O segundo ataque foi a voluntárias que distribuíam comida a pessoas sem-abrigo no Porto, tendo ainda dado um murro a um polícia. Este murro foi perigoso. Sendo que, dias mais tarde, um chefe da PSP foi preso por fazer parte de um grupo de neonazis. A questão é: Como é que ele sabia que não estava a agredir alguém do mesmo grupo? É de temer, quando um polícia e um neonazi entrarem num bar e serem a mesma pessoa.

A terceira agressão aconteceu em Guimarães em plena rua e luz do dia contra um membro de um grupo antifascista.

Nesta mesma semana, vimos líderes de partidos, comentadores de direita e presidentes de câmaras a tentar a todo o custo branquear a violência da extrema-direita; e, no entanto, acho que nem assim os neonazis portugueses se tornam brancos.

Os neonazis portugueses são tão brancos como o papel kraft. São tão brancos como um ovo milenar. São menos brancos que o Branko dos Buraka Som Sistema.

Entre os vários argumentos ouvimos:

Ai mas ninguém fala de ataques da extrema-esquerda.” Pois não. Da mesma forma que ninguém fala de ataques de unicórnios mancos, porque não existem.

André Ventura veio a público prontamente dizer: E os ciganos? Aparentemente, o que é condenável não são os ataques, mas, sim, não serem os alvos certos.

Curiosamente o chamado “whataboutismo” é sempre sobre casos de criminalidade que envolvem pessoas com mais melanina. Nunca se vê alguém comentar sobre ataques de neonazis e ter como resposta perguntas tão relevantes como: E os coalas com pantufas? E os cogumelos saltitantes? E as varizes em coelhos anões?

Entretanto, o capítulo sobre neonazis no RASI (Relatório Anual de Segurança Interna) está igual ao sangue puro deles: não existe. Está mais ausente do que qualquer traço ariano do nacionalismo português. Está tão em branco como eles gostariam de ser.

O governo continua sem justificar o desaparecimento deste capítulo no relatório final. Talvez, ao invés de assobiar para o lado, talvez, mas só talvez, o governo esteja realmente a assobiar para os cães.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico

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