Crónicas

Sei que nada sei

“Conheço-te como a palma da minha mão.” Foi, ao longo da minha pequena e feliz vida, a maior mentira que alguma vez ouvi. E quem me conhece minimamente, como a ponta do dedo mindinho do pé, aquele pequeno que normalmente é desprezado e até ponderamos se faz assim tanta falta, sabe que a Mentira está nomeada no Top 3 das coisas que de verdade mais odeio na vida.

Pensemos da seguinte forma. Ninguém ousa saber nem pensar que sabe o que eu realmente sou.

E sabem porquê? Porque nem eu própria sei.

Não me vou apresentar, dizer o meu nome, idade, filiação, número do cartão de cidadão e, se fizerem questão, de estudante.

Sempre pensei que fosse vir a ser Médica, até ao dia em que vi uma ferida supostamente exposta, que era o coração mais importante da minha vida, e percebi que nunca ousaria saber lidar com o sofrimento.

Eu já achei o rosa lindíssimo, ao ponto de ter uma parede Rosa choque de fundo nos sonhos. Passei uma fase que nem o bebé podia ver e, hoje em dia, para me irritarem há quem me chame Rosinha, pela quantidade de partes de cima dessa cor que preenchem o meu armário.

Achei, durante anos, que cabelos cacheados era imagem típica de brasileira, que bonito era cabelo lambido, eram olhos rectos, face bem delineada e lábios semi-grossos.

Considerei que seria ridículo isto ou aquilo, mal visto, completamente pouco ponderado.

Já pensei que não seria nunca mais do que uma menina que chorava, quando tinha a roupa suja, e hoje percebo que olhar para as calças e ver uma nódoa que não saiu na lavagem, porque o detergente não é o melhor ou talvez não esteja preparado para roupa que carrega tantas aventuras, e lembrei-me do molho do jantar magnífico que potenciou aquela eterna memória.

Já disse que não dormia “naquelas condições” e já me dei ao luxo de adormecer na terra húmida.

Já disse não a coisas que hoje diria que sim e já achei que um talvez teria sido a melhor opção.

Já pedi que tivesse outra vida, outro mundo, outra galáxia e até outra forma.

Já implorei que me perdesse e já ansiei pela descoberta.

Já quis tudo, já pensei ter perdido tudo, ser um erro de fabrico, daqueles que vão para outlet e hoje chego à conclusão de que não há ninguém que realmente me conheça no mundo. Onde também eu me incluo.

Ninguém me conhece de verdade, quando nos primeiros 7 anos de vida não bebia leite achocolatado e durante outros tantos deixei de conseguir bebê-lo natural.

Somos tudo o que queremos ser, como queremos ser, partilhando com quem queremos. E só por isso é que somos nós. Nós onde o Eu é mais forte que qualquer outra variável.

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