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Escrever é matemático?

Perguntei a três poetas se normalmente escreviam de rajada ou se o processo era mais complexo. Todos eles fugiram à resposta. Desconfio que porque, precisamente, escrevem de rajada e fazê-lo não é bem visto. Não é arte, dizem por aí. É só inspiração súbita sem critério.

Os especialistas irão mais longe e dir-me-ão que aquilo a que chamo “rajada” é, na verdade, pseudociência. O nome pomposo é “escrita automática de André Breton” e admira-me imensamente que não seja escrito em latim.

Acusado de falta de criatividade, este tipo de escrita surge do fluxo criativo do inconsciente. Sem filtros, procura aproximar o nosso subconsciente do nosso consciente, de forma a desvendar os aspetos mais sórdidos de tudo o que recalcamos sem saber.

Assim, e aqui chegados, torna-se óbvio que o Camões e o Breton nunca se cruzaram, nem mesmo por meio de misteriosas máquinas do tempo. Para o Camões, tudo era uma equação de sílabas, palavras e ritmo. Para o Bretón, qualquer coisa poderia sair.

Talvez o critério do “qualquer coisa” diminua o valor técnico da coisa, é certo. Mas não subo ao pedestal da indignação para dizer que é proibido escrever as palavras mais puras que a alma juntou.

Pensemos no caso das entrevistas: não são os soundbytes que criam os títulos? Sim, é jornalismo, não poesia nem literatura. No entanto, as palavras ditas sem pensar transformam-se em palavras escritas, que dizem muito sobre quem as disse.

Ainda há pouco tempo, saiu um livro todo feito de conversas que o escritor Manuel da Fonseca teve com Amália. Não houve nem um pingo de técnica na formulação das perguntas e das respostas? Tenho a certeza que é seguro dizer que nenhuma daquelas frases estavam pensadas ao pormenor. Enquanto eram proferidas, eram a vida a acontecer.

Por seu turno, um texto – nem que seja milésimas de segundos antes – antes de ser escrito, também é dito. E que mal há que saia de rajada?

Para matemática misturada com as letras, já nos bastam o SEO, as mil aprovações e a autocensura. Se subtrairmos as barreiras, o resultado pode vir a surpreender-nos.

Florbela Caetano

Ligar o rádio é a primeira coisa que faço ao acordar. E isso já diz muito sobre uma jovem adulta, no século XXI. Como se este desajustamento não bastasse, gosto dos mundos que se dizem contraditórios: a publicidade e o jornalismo. Trabalho no primeiro. Procuro formas de me manter ligada ao segundo.

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