O amor vale sempre a pena

É fácil amar o bonito, o encantador, o alegre e o excitante, mas é nos defeitos, na tristeza, na doença, no monótono e até mesmo no feio, que se fala de amor a sério. Julgo que é a partir daqui que se pode fortalecer a aliança onde tudo o resto é conjugado. É também aqui que eu encontro a definição do verbo amar, no conforto da cumplicidade que só existe entre quem partilha tudo, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da vida…

É algo de belo e raro envelhecer juntamente com o amor de uma vida, em descoberta conjunta e em partilha. Eu fui bafejada por essa sorte, pois nasci e fui testemunha de um amor assim, extraordinário e inspirador, rico em respeito, amizade e cumplicidade, imperfeito e perfeito, com mais de 50 anos e que só terminou com a morte. Aliás, nem terminou… E este é um dos sentidos que atribuo ao manifesto “até que a morte nos separe”. Ou seja, a morte de um dos cônjuges, mas não só. Também pode significar a morte do amor. Sim, a morte do amor. Porque o amor também morre. Morre, mas não é apagado. Fica gravado e, de uma forma ou de outra, deixa frutos. Pois do amor nasce sempre algo de novo, que abre e eleva um pouco mais a alma, e ainda que subtilmente, que gera e multiplica amor…

O encantamento dos primeiros tempos do dito amor é, muitas vezes, tão sobrevalorizado que depois quase ninguém se prepara para o resto, em boa verdade para o verdadeiro amor. Para a vida. Para a rotina. Para as piadas que só os dois entendem. Para os silêncios partilhados. Para o luto. Para as memórias construídas. Para o cuidar. Para as dificuldades e obstáculos. Para um amor que requer um semear cuidado, adubo, paciência e, sobretudo, tempo. Tempo para fazê-lo crescer, florescer e dar frutos. Para um amor cujos alicerces suportam as tempestades dos maus agoras.

Pela oportunidade de nos tornar pessoas melhores e almas maiores, o amor vale sempre a pena. Mais ainda: acredito no amor para sempre, no sentido em que o sempre do amor é a sua verdade e intensidade. Podem ser segundos, minutos, horas, dias, anos… o importante é que seja verdadeiro. Esta é a minha concepção de amor eterno.

Também acredito nas almas gémeas, que conseguem extrair o melhor do outro. Creio na sintonia do amor, como uma rede sem fios e com muitos filhos, feita de horas felizes, de partilha, de esperança, de futuro, de aprendizagem, de crescimento e de sentido, de sentido para a nossa existência.

Envelhecer juntos, com as rugas e com tudo o que o envelhecimento traz, julgo que será o clímax do amor.

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