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Bem-Estar

Amores, desamores e outros que tais

Penso que haverá poucos temas tão debatidos, referenciados, romanceados ou mesmo desagregadores de opiniões como o Amor.

Se procurarmos entre os grandes escritores, todos de alguma forma o tornaram protagonista das suas obras, ainda que na versão do desamor, ou mesmo de forma velada, entre a candura possível da contenção e o excesso irreprimível da paixão. Também outros artistas lhes reservam lugar destacado, qualquer que seja a arte. Neste sentido, é dos temas mais requisitados, mas será que isso te ajudado na explanação do conceito, ou pelo contrário tem contribuído para a sua incapacidade de definição, na ampla e óbvia riqueza das sensações, sentimentos, e no desprovimento do racional?

Tema complexo, que excede em muito o amor apaixonado, enleia-se por entre as gentes, tornando-as supremas ou miseráveis, extasiantes ou depressivas. Não conheço ninguém imune a esta força, ainda que lutando contra ela. Não conheço quem não tenha, mais cedo ou mais tarde, dado por si a sorrir sozinho de uma memória, ou a manifestar um contentamento pela visão de alguém, ou sentir-se amado porque alguém o aceita  como é, sem mais.

Parece-me que existe uma tendência para consciencializar o amor pelos outros: a amizade, a capacidade de dádiva, a empatia. Mais do que uma tendência, uma necessidade,  para que a humanidade se realize, também, através do outro, num reciprocidade saudável. Consta que o amor pelos outros tem que ser acordado naqueles que, auto-focados, vivem de forma diminuída esta força que é amar. Sair de si para o outro, companheiro, amigo, ou simples ser humano. Mas a linha de sanidade relativamente ao papel do outro na nossa vida, é ténue. Em casos extremos, a crença de que sozinho não se é feliz, e que no outro pode residir a nossa alegria, acarreta por vezes o risco imenso da dependência emocional, em que existe uma sobrevalorização do papel do outro. Não raros são os que permanecem em relacionamentos que não os satisfazem, por esta questão, subjugando a acompanhada solidão  ao amor próprio. Isto sem falar em casos extremos como os narcisistas e manipuladores. As pessoas carentes são presa fácil para estes, mas é a falta de amor-próprio que o permite. Mais vale só…

No entanto, muitas vezes após experiências românticas negativas, ou amizades que prescreveram no tempo à força de acontecimentos dolorosos, há uma intrínseca necessidade de reafirmar o amor próprio. Este amor, que deveria ser basilar e inato, constituindo elmo contra abusos, surge apenas à posteriori como um curativo aos cortes que outros desferiram. Surge como uma compensação pelos danos que cada um permitiu que terceiros lhe arremessassem. A noção da unicidade e da singularidade do ser surge como salvadora, e é apenas lamentável que seja necessário um desfecho menos positivo,  para que se tenha a noção do equilíbrio entre o próprio e o outro. Afinal, cada um de nós será sempre a sua garantida companhia, independente de quem venha ou de quem vá.

Mas, às vezes, o cúmulo de desaires amorosos e dum exacerbado culto da individualidade, pode ser, como a distância em linha recta entre dois pontos, a forma mais curta de se privar do amor.

Quantas pessoas conhecem que, por motivos de defesa, optam pela negação futura de relacionamentos, quaisquer que sejam as tipologias, colocando-se como um eremita emocional? Quantos, no seguimento de uma história de solidão (atenção, não confundir com solitude), encontram no afastamento social forma de se preservarem da sua vulnerabilidade, ainda que muitas vezes não o identifiquem como tal, mas antes como não precisando do outro? Inúmeras pessoas vivem neste isolamento em que muitas vezes se colocam, por excesso de cautela. Há ainda aqueles que parecem desprovidos de sentimentos em geral, não por esta ou aquela pessoa em específico. Esses seres, dotados de uma insensibilidade afectiva, optam pela sentimentalidade  desinteressante e sem marcos, incapazes de arriscar  o sabor dos altos e baixos, coincidente com a linha da vida

Estas são as pessoas que não se deixam amar. São aquelas que, por razões várias, ou deram demasiado de si, ou não foram apreciadas devidamente e temem a repetição do desfecho infeliz. Apoiando-se na sua aparente independência emocional, inibem toda e qualquer tentativa de aproximação, ainda que apreciem a pessoa em questão. Fazendo crer que  não precisam de ninguém, contribuem para um isolamento progressivo que pensam desejar. Outras vezes desejam essa abertura, mas não conseguem, ou porque não se acham merecedoras, ou porque não surgem as pessoas certas que compreendam a sua limitação e ainda assim as façam permanecer por perto. A cada falha emocional, o reforço de que o amor não é para si.

Amar é um risco, sempre foi, sempre será.

Mas é um risco que vale uma vida.

Temer o amor é temer a vida, e os que temem a vida já estão meio mortos.

Bertrand Russell

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com Pós-Graduação em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Fui cronista na revista Bird Magazine e edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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