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(Novos) Contos da Montanha

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Li os Novos Contos antes dos Contos da Montanha, ambos em versões envelhecidas num qualquer arquivo de alfarrabista, como se viessem do tempo duro do passado rural onde as histórias que Miguel Torga neles relata, aconteceram. Publicados em 1944 e 1941 (pela ordem que os li), tal como o vinho (e outras coisas), vêm melhorando com a idade, sobretudo à medida que nos vamos afastando da época e o conjunto de histórias vai deslizando de um testemunho concreto e despido de uma actualidade que não era permitida à literatura, para uma janela aberta sobre o passado difícil das gentes da terra de um Portugal transmontano da primeira metade do século passado.

A Sofia, colhendo os meus desejos de conversas soltas, ofereceu-me os exemplares: num primeiro momento apenas o segundo livro estava disponível, daí a ordem inversa da leitura, mas pouca diferença faz começar por um ou por outro pois cada conto é uma estrela cintilante, embora todos formem uma constelação ou até uma galáxia que brilha alto no firmamento da literatura portuguesa.

Natural de São Martinho da Anta, Trás-os-Montes, Torga pretendeu retratar as gentes da região, a rudeza daquelas vidas que lutavam por algo mais do que apenas existir, mas que se viam continuamente empurradas para aplacar as agruras do tempo, como se o direito a algo mais não lhes tivesse cabido na distribuição da sorte que à nascença nos toca a todos.

Estas leituras trouxeram-me um prazer como não esperava: cada conto é um primor de estilo, de rudeza, de captação da essência da vida rural. Novamente a sorte a fazer das suas: apanhou-me ao cruzar-se comigo no momento ideal em Novos Contos da Montanha; quando assim é, corremos o risco de o elogio ir além da medida justa, mas no caso, ano e meio após as leituras, creio ter passado o tempo de confundir amor com paixão.

Os Contos e os Novos Contos formam um regalo de portugalidade, um Portugal talvez em extinção (e ainda bem, em certa medida), mas com tal autenticidade e beleza da palavra que aviva a diferença entre um escritor e aquele que escreve. Uma viagem no tempo, a um país quase desaparecido, e que sob a lente do presente nos aparece cru, em toda a sua dureza, mas sobre o qual cai um certo romantismo. A Literatura é capaz desta proeza: conjugar a rudeza e a beleza, oferecendo ao leitor esta experiência tão rica. E Miguel Torga é um exímio intérprete dessa arte.

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António V. Dias
Tendo feito a formação em Matemática - primeiro - e em Finanças - depois - mais por receio de enveredar por uma carreira incerta do que por atender a uma vontade ou vocação, foi no Cinema, na Literatura e na Escrita que fui construindo a casa onde me sinto bem. A família, os amigos, o desporto, o ar livre, o mar, a serra... fazem também parte deste lar. Ter diversos motivos de interesse explica em parte por que dificilmente me especializarei alguma vez em algo... mas teremos todos que ser especialistas?

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