Há muitos anos, quando trabalhava numa clínica, além de querer ser uma boa profissional ainda acreditava que as pessoas mereciam toda a atenção. Depois do meu turno ia visitar os doentes que não recebiam visitas ou os que ficavam por estadias prolongadas.
Um deles era um senhor inglês que não tinha mais ninguém na vida. A mulher já tinha morrido e ele nunca tinha superado a sua ausência. Eu, parvinha de todo e convencida que podia salvar o mundo, todos os dias o visitava e lhe contava histórias. Era de companhia que ele precisava e não de medicamentos.
Inevitavelmente voltou para casa, um lugar frio, solitário e cheio de memórias.
Senti um friozinho cá dentro, mas os meus dezassete anos não me permitiam fazer mais nada. Interrogava-me como iria ser a vida daquele pobre homem. A comunidade onde vivia apoiou-o e ele ainda viveu alguns anos. Era um querido! Um velhinho de cabelo muito branco e lindos olhos azuis.
A estação dos correios era mesmo em frente à clínica e eu conhecia todos os carteiros. Um dia um deles disse-me que eu tinha uma encomenda em Santa Apolónia. E ria-se imenso. Pedi-lhe o papel que comprovasse e tinha escrito o meu nome.
Pensei ser um engano, mas ele mostrava a prova daquilo que afirmava. Para completar o ramalhete, soltava umas gargalhadas bem fundas e sonoras. Eu não estava a perceber nada daquilo.
Assinei o documento e pedi ao meu colega para ir levantar a dita encomenda. Na verdade, foi uma agradável surpresa e uma história para nunca mais me esquecer. Ele chegou e ria-se tanto que pensei que tinha enlouquecido. Mas estavam todos parvos?
Fui ver. Eram treze perus vivos. Um por cada dia que lhe tinha feito uma visita. No seu entender, o peru só se comia no Natal por isso era especial. Era uma forma de agradecer o meu cuidado. Para quem é fleumático demonstrou que tinha muito calor dentro de si.
Fiquei sem saber o que fazer. Não os podia devolver. Como levar aquela bicharada para casa? Resolvi o assunto da melhor maneira que entendi. Acabei por levar um deles, no autocarro, preso por uma corda ridícula e a ser gozada por todos os passageiros. Está certo. Eu mereci!
Enfim, as coisas que me aconteciam por eu ser ingénua e tola, mas cheia de boa vontade. Durante meses toda a minha comida era à base de peru. Foi Natal durante muito tempo. Ele telefonava-me quase todos os dias e eram conversas que só faziam sentido para ele. Chorava a morte da mulher e queixava-se da solidão. Que dor de alma…
Mal sabia eu que, mais tarde, voltaria para aquele local e que as suas últimas palavras seriam para mim, a confundir-me com a sua amada mulher. Morreu nos meus braços e ainda hoje não consigo parar de me lembrar daquela alma perdida. O destino prega-nos partidas e a senhora chama-se Daisy.
Não morreu sozinho pois sentiu que a mão de quem ele amava o puxou e levou para junto de si. A minha tremia mais que uma vara verde, mas isso não importava. Eu gostava verdadeiramente dele, do David que ficou tolinho com o desgosto. Morreu de mão dada comigo.
Hoje morre-se de dor, de saudade, de solidão, de abandono. Os velhinhos definham com tudo o que se está a passar. Têm em si uma força potencial carregada de amor que necessita de ser bem extravasada. Precisam de contacto, de calor humano, de saberem quem são, de se sentirem ainda muito úteis.
Mais uma vez me lembro do meu pai. Era velho, tinha noventa e dois anos. Por uma unha negra, escapou à loucura que foi o tempo de confinamento. A minha tia era mais nova, mas apagou-se sem saber o que estava para acontecer. Pelo menos tiveram quem lhes desse a mão antes de desistirem de cá estar. É duro saber que o amor se esgota com o medo.
Na verdade, estamos cada vez mais velhos. Este é um país de gente muito envelhecida, o que não significa que se seja caduco. Somos uns solitários que precisam de amor para continuar a fazer arder a chama de viver. Precisamos uns dos outros e a passagem de testemunho, o legado, esse, que assim seja, nunca se irá extinguir.
Bela história. Adorei o texto.