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Marega e a teoria do racismo estrutural

Cada vez mais distante do nosso desporto-rei, domingo à noite, aproximei-me dele em modo zapping na esperança de confirmar que o Porto tinha perdido pontos e o meu clube seguia confortável no primeiro lugar. Não aconteceu e pior que qualquer resultado, o racismo tinha ido a jogo. Marega escolheu o lado certo e saiu do campo forçado perante odiosos insultos. Já não se pode mais esconder o racismo em Portugal. Como não se pode esconder o “Vai para a tua terra”, que um deputado vociferou contra Joacine, nem se pode desculpar a PSP com supostos empurrões e agressões de Cláudia Simões. Claro que os normalizadores do discurso racista continuarão a dizer que tudo isto é fábula construída por Mamadou Ba, Joacine e toda a esquerda nacional. Os verdadeiros culpados do racismo em Portugal. Afinal, o nosso pacífico país nunca foi racista e transformou-se em meros instantes e por magia (negra?) num território que cometeu o pecado capital: começar a falar e encarar de frente o racismo que os não brancos sempre sentiram, e aí quando se levantou a pequena ponta do véu as máscaras começaram caindo. E continuam.

Cá em casa, costumamos celebrar a diversidade cultural que o futebol luso permite. Marega já tinha sido alvo de atenção especial, com direito a brincadeiras devido à sua evidente musculatura, em tempos brincámos aos “ais” com o poético nome de Ezequiel Garay e transformámos o brasileiro Tiuí em canção para dançar. Pelos vistos, razão tínhamos para nos ter despertado atenção tal jogador maliano. É que Moussa Marega não só desenvolveu os músculos das pernas, mas o mais importante de todos: o cérebro. Sozinho e contra a vontade do mundo, esse sim politicamente correcto, com a sua atitude convenceu-nos que afinal os heróis são mesmo de carne e osso e abandonou o seu local de trabalho. Marega foi alvo de insultos desde que entrou no relvado do estádio D. Afonso Henriques, porque há uns anos nasceu com a pele negra. 

Quando todos tentaram ignorar esta vil humilhação, Marega levantou-se e respondeu. De polegar para baixo e passada convicta. A sua equipa tentou mantê-lo em campo. Os adversários, brancos, negros e amarelos observavam-no saindo como se tivesse sido apenas expulso. Mas a única expulsão que ali aconteceu foi a própria dignidade humana. O seu treinador fez tudo para mantê-lo em campo e no final veio criticar o racismo, esquecendo-se de fazer o mesmo quando os seus adeptos dedicaram cânticos a um jogador negro dos Young Boys. Em Guimarães, o árbitro não interrompeu o jogo, nem foi falar com a vítima de insultos racistas, preferiu incentivar a atitude de Marega com um ternurento cartão amarelo. O presidente e treinador adversários ainda iriam confirmar a veracidade dos insultos e se, por acaso, realmente se se confirmassem iriam condená-los e talvez fazer algo. As televisões despreparadas queriam falar do jogo como se de mais um domingo normal de audiências se tratasse. Para alguns comentadores o jogador ainda poderia ser o culpado. A Liga, a Federação, os clubes, o Governo e o Presidente esconderam-se em palavras redondas, em comunicados previsíveis e ocos. A PSP ainda está a tentar identificar os autores dos insultos, isto quando o jogador saiu das quatro linhas sob um chorrilho de ofensas perpetuadas pela maioria daquelas trinta mil almas. Os adeptos de outras cores tentam coleccionar casos de racismo sofridos por jogadores do seu clube, só pode ser outro campeonato numa divisão inferior. Há até pessoas que não descortinam diferenças entre racismo e insultos ao homem do apito. O racismo não existe no nosso país, está visto. Eles gritam-no já com a voz trémula perante tantas evidências. 

Sem profundos conhecimentos clínicos podemos diagnosticar, desde logo, vistas-curtas, síndrome de nacional-porreirismo aliado a uma clubite agude que tenta disfarçar a qualquer custo os sintomas de vergonha nacional que ontem foi prescrita no estádio que, ironicamente, dá nome ao primeiro rei de Portugal. Os nacionalistas deveriam estar de luto.

Não há racismo em Portugal, disse-me a professora universitária branca e o amigo de infância ainda mais claro, e o branco que virá à caixa de comentários o confirmará. Quem melhor para nos esclarecer que não há racismo que os próprios brancos? Pode ser que agora, por fim, algum se preocupe pois já se sabe, se a nossa imagem for machada no estrangeiro pode sempre ser um perigo para a economia, para o turismo e para o crescimento da finança. Essa teoria da esquerda, o racismo estrutural, está afinal, a partir de hoje, espalhada pelas capas dos jornais mundias, desde o New York Times até ao Le Parisien, para escândalo de todos. Não dá mais para esconder e por isso temos de agradecer a atitude corajosa e inspiradora do jogador maliano que mediatizou um problema nacional, tantas vezes varrido para debaixo do tapete. Depois pedir-lhe desculpa não com palavras mas atitudes, de toda a sociedade portuguesa. Levantarmos a voz e impedirmos que o racismo cresça na nossa sociedade. Nas nossas escolas, nos locais de trabalho, na rua e nos estádios. Deixar bem claro que racismo é crime e não pode haver tolerância com o intolerante. O mito do bom colonizador, herança do Estado Novo perpetuada até hoje, já era. Desde reportagens da Al-Jazeera a dados do European Social Survey (que nos distinguem como campeões do racismo biológico e cultural), a visão do exterior só confirma o que tanto nos custa encarar: em Portugal há racismo estrutural e o nosso papel é combatê-lo.

Francisco Mouta Rúbio

Licenciado em Publicidade, trabalha em audiovisual e social media e está sempre rodeado por cultura, futebol e filosofia. Autor do podcast Dedo no Ar.

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