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Éramos Todos Iguais

Esta não é uma crónica sobre viagens, embora ao início vos vá parecer que sim. O que acontece é que precisamos de começar por algum lado, e, às vezes, é necessário ir longe, para entendermos melhor o que temos perto.

Há uns meses fui de viagem. Destino: uma ilha grega. Não uma daquelas ilhas conhecidas, cheias de turistas, como Mykonos ou Santorini. A ilha que escolhemos chama-se Skopelos. Mal vem no mapa, mas muitos dos que a conhecem e visitam, fazem-no por ter sido a principal ilha onde foi gravado o filme Mamma Mia. Foi o nosso caso. Cada qual tem as suas paixões e nós, temos esta.

Skopelos (ou Escopelos, em Português) é um sonho. Praias com águas paradas e quentes, um mar que tanto pode ser azul como verde, dependendo da luz. Vegetação densa e diversa que cobre mais de metade da área da ilha. Pinheiros que crescem entre as rochas. Uma beleza natural e selvagem que nos transporta para o início dos tempos.

Como sempre que se viaja para um novo destino, os primeiros dias foram de descoberta. De espanto com cada pormenor. Do desconforto bom de se estar onde nunca se esteve, mas havia alguma coisa além disso. Durante algum tempo não soube explicar o que era. Parecia tudo muito “perfeito”, muito cenário de filme com tudo no sítio certo, arrumado, limpo, organizado. O desconforto bom de estar num sítio onde nunca havia estado era também um desconforto de sentir que estando tudo perfeito, faltava alguma coisa.

Até que um dia, dei-me conta do que era, e eis que me tomo de espanto ao perceber o que faltava. Na ilha só existiam pessoas brancas, “ocidentalmente” vestidas e penteadas, culturalmente “em conformidade”. Não havia ninguém de rastas ou de cabelo azul, não havia freaks ou hippies. Não havia negros. Não havia árabes ou indianos, paquistaneses ou nepaleses. Não havia chineses, japoneses ou coreanos. Fazia lembrar o cinzento Portugal de há quarenta anos.

O meu espanto, ao dar-me conta do que faltava, foi um espanto sobre mim mesma. Até àquele momento, nunca me apercebera do impacto que a diferença cultural tem em mim, melhor dizendo, quão importante é para mim olhar em volta e encontrar pessoas diferentes do que eu sou e isso fazer-me sentir em casa. Ir à mercearia e ser atendida por indianos ou paquistaneses, passear junto à Torre de Belém e cruzar-me com dezenas (centenas!) de chineses e japoneses, ter como vizinhos da frente uma família muçulmana. Ir de férias para a costa alentejana desde há décadas e, por isso, férias e praia serem para mim sinónimo de freaks e hippies com o seu artesanato e, mais recentemente, sinónimo de partilhar o espaço com tantas pessoas oriundas de países que até agora me eram tão longínquos, como o Nepal ou o Bangdalesh.

Foi então que tomei consciência de não existir em mim um grão de racismo ou uma migalha de xenofobia. Se tinha dúvidas? Não tinha. Mas uma coisa é assumirmo-nos contra a aberração que são o racismo e a xenofobia de forma consciente, por sabermos que é isso que está certo, outra é percebermos que essa é a nossa essência. Que essa necessidade de nos cruzarmos e convivermos com pessoas que são diferentes de nós nos faz falta. Nos enriquece. Nos faz sentir em casa. Percebem o que quero dizer? Cruzar-me com pessoas diferentes de mim, faz-me sentir em casa.

O tema daria pano para mangas, o que apenas prova o quão emocional, social e intelectualmente atrasados estamos enquanto sociedade. E estamo-lo cada vez mais. A caminhar a passos largos para que as brechas se agigantem. A poucos meses de perceber quantos são os que preferem viver na “ilha”, na esperança de que sejam muitos mais os que escolhem abrir os braços ao mundo.

A beleza da ilha que há pouco tempo visitei, deve-se à diversidade de cores, formatos e texturas criados pela perfeição da Natureza. Já nós, éramos todos iguais.

*Corpo Desnudo e a Roupa no Estendal é uma rubrica quinzenal sobre quem somos. Sozinhos e uns com os outros. Despidos e expostos. Na porta de casa, e a roupa estendida no fundo do quintal.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico
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Luísa de Jesus

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