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Querida mãe e querido pai, então que tal?

As sombras do alpendre reinavam abundantemente e os raios de luz insistiam em espreitar de forma tímida. O banco de madeira estava mais ou menos quente por mérito do dia solarengo e agora, no final do dia, o vento reverencia as rugas profundas de Dona Maria.

O avental, com quadrados brancos e cinzentos escuros, balançavam ao ritmo do aconchego das mãos trémulas nas coxas cansadas da mulher enquanto o olhar golpeava a paisagem em traços melancólicos.

Os suspiros, ultimamente, eram uma prática costumeira inconsciente. Os gemidos insistiam em mostrar-se por estas alturas nostálgicas, tristes e cada vez mais dolorosas.

Dona Maria, mulher viva desde há muitos anos, engelhada pela idade e pela vida, recordava-se de quando era jovem e de quando ainda tinha uma vida inteira pela frente que, por engano seu, pensou que duraria eternamente.

Sozinha, completamente sozinha, restava-lhe as lembranças e tentava focar-se apenas nos episódios bons e momentos felizes ainda que a sensação de falha teimava em erguer-se em bicos de pés. Dúvidas se fora boa esposa e, principalmente e acima de tudo, boa mãe.

O vento trouxe consigo a Vizinha de Dona Maria. A cara mostrava-se séria e com expressão fechada. Sem qualquer temor, a Vizinha que apanhara boleia com a aragem abafada de Verão, pergunta-lhe como se encontra.

À Dona Maria custa-lhe a sorrir. O corte no lábio e o hematoma junto à boca, embora pequeno, magoa aquela área e fere-lhe a alma.

– Chega! – a Vizinha faz um movimento brusco com a mão. – Basta, Dona Maria!

Dona Maria fecha a expressão com ar de ameaça e, mentalmente, pergunta-se como aquela mulher se atreve a agir desta forma, com total desrespeito!

– Não me olhe assim, Dona Maria. – disse peremptoriamente. – Vamos fazer queixa. Basta!

Silenciosamente, Dona Maria dirige o olhar novamente para a paisagem enquanto uma lágrima agitada surge.

Já não tinha forças para debater. Já não tinha forças para argumentar.

Num murmúrio, responde-lhe:

– Mas eu amo-o!

– Basta, Dona Maria. Basta destas agressões. Chega de violência doméstica! – a voz da Vizinha altera-se impetuosamente. – Você é uma vítima! Não compreende que se continua nas mãos dele, ele mata-a!

– Eu amo-o… – di-lo desesperadamente.

– Chega!

– É o meu filho, o meu menino…

“Entre 2013 e 2017, a APAV registou um total de 3.387 processos de apoio a pais que são vítimas de Violência Doméstica por parte dos próprios filhos/as. Estes valores traduziram-se num total de 7.076 factos criminosos”
– Estatísticas APAV – Vítimas de Violência Doméstica – Violência Filioparental 2013-2017 

Dona Maria é o padecente da desconsideração.

Dona Maria é o suicídio do respeito.

Dona Maria é a protagonista do empobrecimento emocional.

Dona Maria é a Mãe e o Pai que sofre de violência.

Dona Maria é a alegoria da Violência Filioparental (VFP).

A veemência neste acto dos filhos contra os pais e o afinco do qual se traduz este tipo de violência, à luz de uma sociedade moralmente correcta e naquilo que se considera certo, é necessário agir, corrigir e condenar exactamente com a mesma veemência e afinco.

Não podemos encolher os ombros justificando isto como actos isolados relacionados com consumo de drogas, psicopatologias e afins.

A razão por estes actos (in)justificados e desprezíveis daqueles a quem se chama de filhos para com os próprios pais, não podem nem devem ser levados de forma leviana só porque há um problema de foro psíquico ou, então, com problemas relacionados com estupefacientes, por exemplo. Para isso, há acompanhamento e cura (ou amenização da problemática e/ou situação que estiver em causa).

Não há cura é para a alma despedaçada de um Pai ou de uma Mãe, tendo uma proporção a nível físico e emocional atroz que belisca qualquer tentativa de absolvição.

No que toca à divulgação e propulsão desta problemática, ainda há um longo caminho pela frente pois apesar dos números surpreendentes das estatísticas apresentadas pela APAV, esta barbaridade continua à sombra, escondida num canto recôndito pois a vergonha sobrepõe-se e a necessidade de proteger os filhos persiste.

A VFP consiste em vários estágios e assume diversas formas de violência: Dano físico, emocional, psicológico e financeiro.

Maltratar e violentar a Mãe e/ou Pai, seja de forma física ou psicológica, porque ele – leia-se filho -, está rabugento ou mal-disposto, é condenável. Talvez tenha 5 anos e acha-se no direito de fazer birras…

Violentar a Mãe e/ou Pai, a nível financeiro, porque pensa que é dono e senhor do dinheiro que os Pais amealharam durante uma vida pois ele é filho legítimo e herdeiro, é condenável. Acordar cedo, todos os dias, para trabalhar tende a funcionar no final do mês…

Abandonar os Pais e isolá-los, colocá-los bem quietos em casa, também serve de estratégia para não incomodar o dia-a-dia atarefado, porém, normal e livre. E ainda, se se portarem mal, poderá haver ameaças de inibição de medicamentos. É condenável.

Por último e não menos importante: as férias!

Haverá sempre uma ou outra cama de hospital para o Pai ou para a Mãe…

É condenável o desrespeito. É condenável os maus tratos de quem cuidou e amou. É condenável a impaciência que assola os filhos porque eles não percebem o funcionamento dos dias que correm. É condenável exigir-se dinheiro, seja que quantia for, e, ainda, tentar impedir ou persuadir qualquer gasto que possam fazer.

É condenável mal tratar e bater numa mãe.

É condenável mal tratar e bater num pai.

É condenável exercer poder sobre eles porque estão velhinhos e debilitados.

Velho é quem pratica este género de violência ou qualquer outra.

Ultrapassado pelo que se transformou e podre por dentro.

A estes, o que lhes vale, é o amor dos pais, independentemente do imbecil que seja o filho e do sofrimento que causa.

É necessário agir, é necessário ajudar.

Não há apenas violência doméstica ou violência infantil ou violência sexual ou outro género de violência.
Há a Violência Filioparental e esta ultrapassa todos os limites.

São actos contra-natura que corrompem qualquer estrutura familiar e adultera quaisquer sentimentos.

A vergonha, a idade, a dependência desculpabiliza a violência praticada pelos próprios filhos.

O amor desculpabiliza qualquer mágoa e dor.

É necessário agir. É necessário ajudar. É necessário gritar.

É necessário dar a mão às Donas Marias.

É necessário, cada um de nós, ser a Vizinha.

***

Contactos úteis:

Linha de Apoio à Vítima – 116 006 (dias úteis das 9h às 19h – chamada gratuita)

Presencialmente num Gabinete de Apoio à Vítima da APAV

Por e-mail: apav.sede@apav.pt

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Rita Morais de Oliveira

Sem apresentações hollywodianas, nasci em 1988 no Nordeste Transmontano, Portugal. Encontrei o meu habitat na escrita desde que comecei a ler e a escrever. Nos meus tempos livres, além de Freelancer de Conteúdos, também sou uma aspirante escritora em (eterna) construção e indiscutivelmente contra o Novo Acordo Ortográfico. Com dois contos editados nas Antologias "À Margem da Sanidade" e "O Penhasco"; outro publicado na Revista Pulp Fiction e um livro em criação. Prevalece sempre o mesmo género literário: policial, thriller, suspense e algum terror psicológico. Como o nosso velho amigo Albert Einstein disse: "Criatividade é inteligência divertindo-se."

2 Comments

  1. Um bom artigo que toca num assunto pouco falada, a violência contra os pais. Bom mesmo seria se existissem mais vizinhas como essas para proteger idosos da ingratidão dos próprios filhos.

  2. Um artigo pouco documentado na mídia convencional. Infelizmente, muitos pais tornam-se reféns dos filhos que utilizam do amor incondicional que recebem para extorqui-los, triste realidade em muitas famílias.

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