Luto parental

Os sinos elevam-se, os tambores batucam e os violinos tocam quando nasce um filho. Uma nova vida que é repartida por tantos deve ser celebrada. A nova etapa começa nesse momento único. Quem chega a este mundo diferente, precisa da proteção materna, da bolsa que o vai proteger para sempre e das outras que se juntam para o amparar. Nascer é um choque que se deseja e anseia.

A emoção é tanta que uns choram, outros riem, outros reagem de modos bem diferentes. É uma responsabilidade acrescida cuidar daquele novo ser que depende totalmente de outros. É um desafio constante e errar será uma espécie de mote que acontece vezes sem conta. Ninguém é perfeito e os percalços servem para aprender os caminhos nesta estrada que se chama de vida.

Sonhos, objetivos, tudo e tanto fazem parte deste nascimento, deste momento que se eternizará na mente de quem o amou desde o primeiro momento, aquele em que ainda o não era. Uma mãe sabe, uma mãe sente, uma mãe é maga. Passagem do imaginário para o real. O primeiro choro, a comunicação, o toque, a pele, a ligação, o laço que se começa a apertar, o cheiro, a total e perfeita identificação.

É um turbilhão de sentimentos, de sensações, de emoções, de dores sofridas com extremos que se conseguem tocar. Nasceu. É meu. É nosso. Está vivo e é saudável. Está inteiro. Acredita-se quando se vê, quando se sente, quando se sente o coração saltar de tanta emoção. Planos que se fazem, práticas que se usam para colmatar as trevas ancestrais de culpa e o obscurantismo.

Momento gravado na memória. Fotograma que se arquiva. Tudo começa agora, com outra intensidade, com outra verdade, com outra necessidade. O início. Assim é o futuro, o bebé que nunca vai crescer, que será sempre pequeno para os seus. O cordão umbilical está cortado, mas não se quer admitir. O estado de graça vai manter-se toda uma vida.

A vida agora seguirá o seu ritmo natural e, mais tarde, pode haver lugar a outro posto, o de avós, a história que se repete de modo mais aligeirado, mais suave. A uma avó tudo é permitido. Mãe duas vezes, como se costuma dizer, o que traduzido poderá ser amor a dobrar, apoio, compreensão, desabafo, ombro, ranho, gomas, cumplicidades. O avô é o compincha para sempre.

No entanto, tudo se pode alterar e a história poderá ter que seguir outro rumo, o final será alterado, a trama toda modificada. Não há como aceitar outro tipo de final. Tudo estava alinhavado para a segurança, tudo certinho, era só ir em frente e nada mais. Contudo os planos da vida são estranhos e insondáveis.

Um filho poderá deixar de existir, de viver, de não estar mais entre nós. Sem eufemismos, um filho pode morrer. E como ficamos quando nos morre um filho? Pode ser recém-nascido, menino, adolescente, jovem, adulto, é sempre o nosso bebé que nos foge, que a vida rouba, sem dó nem piedade, que nos arrebata dos braços e que vai para um longe que se desconhece.

Morre-nos na vida, mas na alma nunca. Há a barreira da mente, repleta das lembranças, cheia de recordações, por poucas que sejam, mas nada alterará o que um dia, sem uma explicação lógica, uma explicação que se possa aceitar, aconteceu. Deixou de existir. Uma faca espeta-se nas costas, no peito, na garganta, em todo o corpo e rouba as forças e a vontade de continuar a viver.

Que situação madrasta! Os pais deviam morrer primeiro que os filhos. Quem disse? Mas devia ser assim, não é natural e muito menos justo. Que planeta estranho este que permite que tal aconteça. É uma estrada longa e rugosa que tem de ser percorrida, sem nunca chegar ao fim. O bebé não está mais, deixou de o ser, deixou de haver. A estrada continua, quente, obrigatória e perigosa. Que fazer?

É preciso continuar a sentir que está nos nossos braços, acarinhar, dar-lhe o banho, vestir, ralhar, orientar. Queremos castigá-lo por uma ninharia que fez, beijá-lo, porque fez o que prometeu, deixá-lo sair com os amigos, levá-lo todos os dias à escola, abrir-lhe as asas e deixá-lo voar. Choramos quando nos visita, criticamos quem escolhe para companhia, amamos os netos, somos as mães imperfeitas mas perpetuadas, mães para sempre.

Agora sermos espoliadas, violadas e raptadas desse amor, dessa continuidade é que não devia ser permitido. Não! Nunca! Não podemos trocar, deixá-lo viver e sermos nós a abandonar este local de suplício e dor? Além de muito injusto devia ser ilegal e os responsáveis seriam severamente punidos pelos seus atos desumanos.

Quem somos? Que nos resta? Perdemos a nossa identidade, já não há mãe ou pai. perdeu-se o que se contruiu e os sonhos morrem, num ímpeto, carregados de nuvens negras, um negro que se vai transformando em púrpura e nos tolda a visão. Não é verdade o que está a acontecer. É malévolo, tal como a vida todos os dias.

Perder um filho é arrancarem as entranhas, tirarem os olhos, cortarem os pulmões, partirem as pernas, operarem o cérebro, deixar de comer e beber, não querer mais dormir pois o coração continua intacto, cheio do que aconteceu e que nunca poderá ser esquecido.

Como podem cinco dias curar um coração que sangra para sempre? Como se pode esquecer aquela dor que não vai abandonar, nunca mais, quem o fez, quem o amou, quem o quis, quem o criou? Que dias fazem esquecer a dor que não desaparece jamais? Há um coração que continua a sangrar e que, a cada pequena abertura, jorra dor e saudade, para não mais se querer fechar.

Um filho nasce nos braços, nos sonhos e desejos e na vida. A sua morte é um luto eterno que progenitor algum pode esquecer. Quanto tempo é preciso para que se equilibre o corpo e mente? As saudades são eternas, mas o corpo precisa de as aceitar. Cinco dias, como se fosse um familiar próximo a quem tem que se dizer adeus. Cinco dias, como se nesse tempo os retalhos de dor ficassem todos colados e certeiros. Cinco dias, como se a dor tivesse tempo limitado.

Um filho é um pedaço de cada um, uma continuidade que se apaga com a sua morte, uma memória que fica cada vez mais nevoenta e amarelada, uma sépia que não sabe como aceitar a cor. Um filho é sangue e vontade, corpo que é dado de livre vontade, sonhos que se concretizaram e futuro que se corporizou. Um filho é uma página de mundo que se escreve e que, na sua ausência, se rasga para não mais se conseguir colar.

Não há tempo algum que colmate a sua falta, que ajude a amenizar a dor que é carregada como uma cruz pesada, por caminhos tortuosos e lamacentos. É uma ferida que não se cura e, mesmo que os sorrisos voltem, há uma lágrima que nunca seca dentro de nós. Há ainda casos em que não tenham chegado a nascer, que não assistiram à luz do dia, mas existiram. Um filho que morre é a cicatriz mais profunda e dolorosa que um corpo pode sentir.

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