Subitamente diferentes cidades acordaram com cartazes do Chega a afirmarem «Isto não é o Bangladesh!» ou «Os ciganos têm de cumprir a lei!». Em resposta, mais de 450 queixas foram apresentadas à Comissão Nacional de Eleições, tendo esta decidido que não existia ilegalidade alguma.
Tomados à letra, os cartazes não apresentam ilegalidade alguma. Afirmar que Portugal não é o Bangladesh é um facto, porque se tratam de países distintos. Podemos dizer que Portugal não é o Afeganistão como não é a Eslovénia, mas ainda ninguém se tinha lembrado de pôr isso num outdoor. O mesmo se pode dizer de etnias ou grupos sociais terem de cumprir a lei, porque realmente a lei está acima de todos e temos de a cumprir.
O problema destes cartazes, contudo, não é o conteúdo literal, mas no apelo simbólico que têm. Quando o Chega apresenta cartazes a indicar que Portugal não é o Bangladesh, há uma tentativa de distinção e contraste com aquele país. Ninguém olha para os cartazes e pensa, por exemplo, nos inúmeros arranha-céus de Dhaka, a capital do Bangladesh, como o City Center, que é mais alto do que qualquer edifício em Portugal.
Os cartazes procuram ressoar nos estereótipos que a nossa população tem sobre os nacionais daquele país. Estereótipos que descrevem os bengalis como desrespeitadores das regras ou desordeiros. O mesmo se pode dizer acerca dos cartazes que dizem que os ciganos têm de cumprir a lei, como se se tratasse de uma exigência específica àquele grupo.
O que se pretende é, mais uma vez, apelar ao estereótipo de que esta etnia age sem respeito algum pela lei. São cartazes que carregam acusações assentes em preconceitos e estereótipos e que têm um propósito político: alimentar medos, reforçar preconceitos e criar bodes expiatórios.
A desinformação sobre comunidades ciganas e sobre determinados perfis de imigração é instrumental para esta narrativa. Em boa verdade, o Chega não se preocupa em defender os interesses dos portugueses, quando estes estão em confronto com outro tipo de imigrantes: os ricos. Muitos destes compram casas em Portugal e nem sequer aqui vivem. Aliás, esses não são sequer catalogados de imigrantes, mas de investidores.
O Chega não tem a preocupação no cumprimento das regras, quando são os seus deputados que não a cumprem. Quando olhamos para o comportamento do próprio partido, a alegada defesa da lei rapidamente se desfaz. São inúmeros os episódios em que deputados e dirigentes do Chega infringem regras, normas ou códigos éticos.
A preocupação com a legalidade, afinal, parece ser seletiva: aplica-se sobretudo aos mais pobres, aos marginalizados da sociedade, aos que têm menos poder para se defender.
No fundo, estes cartazes não pretendem informar nem defender a justiça. Pretendem dividir, acusar e mobilizar ressentimento. São um exercício calculado de exploração de medos e estereótipos, sendo por isso mesmo que não podem ser avaliados apenas pelo que dizem, mas sobretudo pelo que insinuam. Trata-se, por isso, de um exercício calculado de exploração de medos e estereótipos.
Não existe uma preocupação genuína em discutir as questões estruturais que justificam a degradação das condições materiais de vida dos que aqui residem. Enquanto isso, as causas estruturais da degradação das condições de vida permanecem intocadas. Portugal tem hoje uma proporção de jovens licenciados acima da média europeia, mas estes recebem salários cerca de 29% inferiores aos seus pares na União Europeia. Apesar de ser a geração mais qualificada de sempre, enfrenta uma taxa de desemprego jovem muito acima da média nacional.
O partido político que diz querer defender os portugueses não tem apresentado medidas concretas que resolvam os problemas que os portugueses enfrentam. É mais fácil culpar os mais vulneráveis do que enfrentar os verdadeiros fatores que alimentam o descontentamento social. E enquanto continuarmos a permitir que o debate público seja dominado por simplificações perigosas, perderemos de vista os problemas reais e as respostas que verdadeiramente podem melhorar a vida das pessoas.
Em última instância, estes cartazes não revelam uma preocupação com a lei, mas uma estratégia política que instrumentaliza minorias e grupos marginalizados. É, no fundo, uma tentativa desesperada de quem procura alcançar poder à custa do medo.