Texto com spoilers sobre o livro O Acontecimento.
Conheci Annie Ernaux apenas em 2022, o ano do seu reconhecimento global com a entrega do Nobel da Literatura pela sua obra. Eu, leitor há muitos anos, mas sempre iniciado nas páginas da literatura, voltei a debruçar-me sobre a curiosidade de ler uma escola europeia que pouco me aliciou até então.
Depois da obra Os Anos, lida pouco depois da entrega da distinção, ficou a impressão honesta de uma autora superior, com uma escrita distinta, para o bem ou para o mal, e que me acompanharia por mais tempo. Felizmente, estas linhas podem ser associadas a mais autores, sem distinção de género ou tempo de escrita, o que impede o leitor mais voraz de conseguir acompanhar tudo o que de bom ou mau a literatura nos pode dar.
O Acontecimento foi o livro que se seguiu, alguns anos depois, tarde no tempo devido à sua contemporaneidade, mas, também, para sempre cedo; o nosso papel não passa de um lugar secundário neste tema. Ainda que fosse escrito nos anos sessenta, a questão dos direitos humanos, alicerçada numa história verídica, é fundamental para verificar o perigo que corremos e a urgência de cimentar os direitos das mulheres na sociedade global: o livro retrata as primeiras oito a dez semanas de uma gravidez não desejada. Annie, aluna universitária numa década de início de conversa, no que diz respeito a múltiplos direitos humanos, escreve sem pudor acerca da visão e dos sentimentos à época, com o apoio de uma Annie distinta, atual, já forjada pelos anos decorridos. Viajamos por algumas partes da França em busca de algo: resolução, redenção, independência; nos últimos instantes, perto do final, sentimos uma liberdade ocasional. A liberdade que Annie, a autora, conquistou; a liberdade que lhe permitiu escrever sobre si, nos seus moldes, sobre um assunto que a violentou, mas que surge como um pecado na mente de outros; à época longínqua de sessenta, no início do novo milénio, data da edição do livro, ou vinte e cinco anos depois, hoje.
Ainda que seja uma história de fácil resolução, prefiro não revelar o desenlace do livro. A conclusão fica, em conjunto com a memória do início da minha lucidez infantil, nos anos noventa, com a luta pelo direito ao aborto. Nessa altura, estava longe de saber, ou acreditar, que, volvidos trinta anos, com olhos postos no passado ou no futuro, quase nada mudou. Aparentemente, temos mais dificuldade em encontrar o caminho para a evolução da condição humana do que o trajeto espinhoso da evolução tecnológica.